História
dos Batistas
Muitos
teólogos do meio batista creem que os mesmos são fruto da comunidade de
cristãos advindos de John Smyth e Thomas Helwys. No entanto, esse comportamento
em dizer que os batistas não são descendentes dos anabatistas veio do fato de
estes serem duramente perseguidos pelos católicos e pelos protestantes, sendo
presos e mortos por ambos. Este trabalho visa provar que os batistas modernos
são descendentes diretos dos anabatistas da Antiguidade e Idade Média.
Os
batistas não creem na sucessão apostólica. O ofício apostólico cessou com a
morte dos apóstolos. Às suas igrejas, que Cristo prometeu uma contínua
existência desde quando organizou a primeira delas durante o Seu ministério
terrestre, Ele prometeu: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mat. 16:18).
Quando Ele proferiu a Grande Comissão, que foi confiada à igreja para execução,
Ele prometeu: “Ensinando-os a guardar
todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os
dias, até a consumação dos séculos. Amém. ” (Mat. 28:20). Esta Comissão -
este trabalho - não foi dado aos apóstolos como indivíduos, mas a eles e aos
demais presentes na sua capacidade de membros de Igreja. Os apóstolos e demais
que o ouviram pronunciá-la, cedo morreram. Mas, sua igreja tem vivido através
dos séculos, fazendo discípulos, batizando-os e ensinando-lhes a verdade - as
doutrinas - que Ele comissionou à igreja em Jerusalém.[1] Este trabalho visa provar
que os anabatistas são a igreja de Cristo, resistente às heresias até os dias
de hoje.
Desde
a fundação das igrejas, houveram divergências sobre a doutrina bíblia certa, o
que gerou diversas brigas entre as igrejas. Um grupo começou a ser chamado de
rebatizadores (anabatistas), pois rejeitavam o batismo de crianças, que já
começaram a ser feitos no século II. Os anabatistas (“rebatizadores”) exigiam que
uma pessoa que tinha sido batizada sem entender a doutrina correta teve um
batismo inválido, devendo, portanto, ser rebatizada. Desta forma, diversos
grupos podiam ser chamados de anabatistas, pois havia a necessidade de batizar
aqueles que entendiam o que era a correta doutrina.
Desde
a época de Tertuliano (160 d.C. – 220 d.C.) os anabatistas praticavam o
rebatismo, pois, de acordo com eles, o batismo não era válido se fosse feito
sem algum elemento essencial, tanto para os sujeitos do batismo, quanto aos
administradores do batismo, ou no modo em que foi feito o batismo, tornando o
rito de batismo completamente nulo; e, portanto, afirmavam que o batismo deles
(dos anabatistas) era o único correto. Quase todos os pais da igreja (exceto
Tertuliano) começaram a defender o batismo infantil, alegando que era uma
prática desde os apóstolos.[2]
As
características que os anabatistas já pregavam desde o século II é que só
deveria ser batizado um crente em Cristo que reconhecesse que: 1. Que a igreja
de Cristo na Terra seja uma assembleia de santos reais, e deve ser mantida pura
dos ímpios. 2. Que nenhum homem nasça membro de uma igreja em particular, mas
deve escolher voluntariamente. 3. Que o batismo só deve ser administrado aos
adultos, em uma profissão pública de fé e arrependimento, por imersão. 4. Que
todos os governantes não tenham autoridade para promulgar leis ou para impor
obediência em matéria de religião. 5. Que os ministros da religião não tenham
poder sobre as opiniões ou consciências de seus ouvintes, mas devem ser
considerados meros professores. E, 6. Que o estabelecimento religioso e a forma
de adoração, nas igrejas cristãs, devem ser congregacionais ou independentes.[3] A fonte deste pensamento
era o evangelho de Marcos, 16.16: “Quem crer e for batizado será salvo; mas
quem não crer será condenado.”. Assim, somente quem pode crer é que pode ser
batizado, e, portanto, crianças não poderiam ser batizadas, pois não tem
consciência do pecado e do evangelho.
A
primeira vez que o termo “anabatista” é mencionado foi durante um cisma entre
duas lideranças na igreja primitiva quanto ao batismo ser eficaz para a
salvação, aplicando-se em crianças, e não ser eficaz para salvação,
aplicando-se somente a quem tinha noção do pecado e do arrependimento. Os
historiadores McClintock e Strong afirmam que “Na Ásia Menor e na África, onde
por muito tempo rugiu amargamente o espírito da controvérsia, o batismo só foi
considerado válido quando administrado na igreja correta. Tão grandes foram as
disputas sobre a questão, que dois sínodos se convocaram para investigá-la. Um
em Icônio e outro em Sínada da Frígia, os quais confirmaram a opinião da
invalidade do batismo herético. Da Ásia passou a questão à África do Norte.
Tertuliano concordou com a decisão dos concílios asiáticos em oposição à
prática da igreja Romana. Agripino convocou um concílio em Cartago, o qual
chegou a uma decisão semelhante aos da Ásia. Assim ficou a matéria até Estevão,
bispo de Roma, no ano de 253, provocado pela ambição, que procedeu em excomungar
os bispos da Ásia Menor, Capadócia, Galácia e Cilícia, aplicando-lhes os
epítetos de rebatizadores e anabatistas. ”[4]
O
historiador Johann August Wilhelm Neander também
registra essa cisão, na criação do termo “anabatista”, mostrando que as igrejas
erradas, quanto ao batismo, estava a de Roma e as outras que a seguiam. Sendo
assim, a igreja de Roma excluiu, no ano de 225 d.C., as igrejas da Ásia. Ele
faz o seguinte relato sobre estes acontecimentos: “Mas aqui, outra vez, foi um
bispo romano, Estevão, que, instigado pelo espírito de arrogância eclesiástica,
dominação e zelo sem conhecimento, ligou a este ponto (salvação pelo batismo)
uma importância dominante. Daí, pelo fim do ano de 253, lavrou uma sentença de
excomunhão contra os bispos da Ásia Menor, Capadócia, Galácia e Cilícia,
estigmatizando-os como anabatistas, um nome, contudo, que eles podiam afirmar
que não mereciam por seus princípios: porque não era o seu desejo administrar
um segundo batismo àqueles que tinham sido batizados, mas disputavam que o
prévio batismo dado por hereges não podia ser reconhecido como verdadeiro. Isto
induziu Cipriano, o bispo [de Cartago] a propor o ponto para a discussão em
dois sínodos reunidos em Cartago em 225 A.D., [tenso sido] um composto de 18,
outro de 71 pastores, ambas as assembleias se declarando a favor das ideias de
que o batismo de heréticos não devia ser considerado como válido. ”[5]
Hoje,
quem pratica o batismo infantil são: igreja católica romana, igreja ortodoxa
oriental, luteranos, anglicanos, metodistas, presbiterianos e reformados de um
modo geral.
Desta
forma, durante a criação da igreja católica, os anabatistas foram,
possivelmente, o único grupo de resistência direta e contínua contra a doutrina
católica por mil e duzentos anos ininterruptos. Pode-se dizer que a igreja
católica começou, efetivamente, um dia após o término do Primeiro Concílio de
Nicéia (20/05/325 - 19/06/325), quando foi finalizado o concílio. Embora os
cristãos do mundo todo concordem com os dogmas deste concílio, o mesmo não pode
ser declarado como doutrina batista, pois embora reconheça que Cristo seja
Deus, o texto dá margem a dizer que o Cristo seja inferior ao Pai, pois diz que
o Cristo é gerado na eternidade. Essas declarações podem dar ensejo a doutrinas
contrárias à trindade (ou tri-unidade). O mesmo se pode dizer do Espírito Santo
no Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.), que é aceito por todos os
cristãos, mas que igualmente pode ensejar que o Espírito Santo seja inferior ao
Pai. Também foi neste concílio que foi definido que só existia uma igreja,
sendo ela “una, santa, católica (universal) e apostólica”. Portanto, os
batistas preferem a Bíblia sempre.[6]
Um
adendo sobre a Bíblias da época é que ainda não existia a Vulgata Latina, feita
por Jerônimo no fim do século IV e início do século V, que até hoje é a única
tradução aceita pela igreja católica romana. As traduções da época foram:
-Peshitta
(“simples”, em siríaco), escrita em siríaco (versão simplificada do aramaico),
feita em cerca do ano 150 d.C. As primeiras versões desta tradução foram
copiados, possivelmente, dos próprios autógrafos, pois esta versão veio do
mesmo local das principais igrejas, como a Ásia Menor e Síria. Os textos
sobreviventes mostram que haviam somente
os 66 livros que comporiam a Bíblia da Reforma Protestante. Os manuscritos
corrompidos são os posteriores aos anos 200 d.C.
-
Antiga Latina (ou Vetus Latina), escrita em latim, cerca do ano 157 d.C. Esta
tradução começou a ser feita em Cartago, na África, e foi feita de forma
espontânea pelos cristãos. Portanto, existem hoje os seguintes manuscritos da
Antiga Latina: Codex Bobbiensis (séc. IV), Codex Vercellensis (séc. IV), Codex
Bezae (séc. V), Codex Monacensis 13 (séc. VI-VII) e Codex Vindobonensis (séc.
VI). Tertuliano testifica de muitas cópias de uma tradução completa da Bíblia
para o Latim, circulando por todo o Norte da África (onde fica Cartago), no ano
190 d.C. A tradução é literalista ao extremo, ao ponto de transliterar palavras
gregas para o latim quando fica difícil traduzir o grego com perfeição. Durante
a perseguição católica aos anabatistas na Europa, as cópias da bíblia Antiga
Latina eram destruídas. A biblioteca dos Valdesnses, por exemplo, foi destruída
no ano 1170, na qual haviam diversas cópias desta Bíblia. As cópias existentes
hoje (cerca de 35 manuscritos) variam dos anos 300 aos anos 1200.
-Diatesseron,
feito antes ano 160 d.C., que foi uma harmonização dos quatro evangelhos, em
ordem cronológica. Foi escrito por Taciano da Assíria. Teodoreto (390 d.C. a
458 d.C.) encontrou e destruiu mais de duzentas cópias do Diatesseron que
estavam circulando na Ásia Menor. O trabalho não sobreviveu em sua forma
original, mas sim em comentários tais como o de Efraim. A análise dos
comentários sobreviventes mostra que o Diatesseron, na sua forma original, sustenta
o novo testamento presente na Bíblia da Reforma Protestante, diferente em
alguns pontos da Vulgata Latina.[7]
Voltando
ao histórico dos anabatistas, o sacerdote católico Stanislaw Hozjusz afirmou
também a antiguidade dos anabatistas, que são anteriores à Reforma Protestante,
pois mencionou que os anabatistas foram perseguidos por 1200 anos do século
XVI, ou seja, desde os anos 300 d.C. Hozjusz disse que “se assim é, que na
medida em que cada homem está mais pronto a sofrer a morte pela fé da sua
seita, a sua fé deve ser julgada mais perfeita e mais segura, então não haverá
fé mais certa e verdadeira do que os anabatistas, uma vez que não há nenhum
[grupo religioso] agora, ou houve antes, durante esses mil e duzentos anos, que
foram mais cruelmente castigados, ou que têm mais forte, firme e alegremente
tomado o seu castigo, sim, ou se ofereceram a si mesmos, de sua própria
vontade, para a morte, nunca tão terrível e dolorosa [quanto a deles].”[8]
Portanto,
este sacerdote católico confirmou que, não só os anabatistas existiam desde o
século III, mas igualmente que eles foram tão duramente perseguidos, principalmente
na Europa, que se alguém fosse julgado por sua fé, os anabatistas seriam a fé
verdadeira, tamanha era a alegria em ser castigado em nome de Cristo. Isso
mostra que eles davam a vida por Deus alegremente, sem se preocupar com este
mundo.
Outro
escritor, Johann Lorenz von Mosheim, luterano, escreveu que antes da Reforma
Protestante já existia na Europa pessoas com as mesmas doutrinas da igreja
batista: “Antes de se levantarem Lutero e Calvino, estavam ocultas em quase
todos os países da Europa pessoas que seguiam tenazmente os princípios dos
modernos Batistas Holandeses”[9]. Estes batistas holandeses
que Mosheim diz são o grupo fundado pelo teólogo anglicano John Smyth e pelo advogado
Thomas Helwys. Eles fundaram a igreja batista em 1.603, na Grã-Bretanha, e, por
causa das perseguições dos anglicanos, refundaram a igreja batista em 1.609 na
Holanda do Norte.
O
que a história mostra, portanto, é que os anabatistas existem desde o século II,
como grupo que resistiu às doutrinas erradas ensinadas no meio cristão,
sobrevivendo pelos séculos. Com a Reforma Protestante, tanto luteranos,
calvinistas, zwinglianos e anglicanos perseguiram os anabatistas[10].
Os
batistas conseguiram viver com maior liberdade nos Estados Unidos da América.
Foram o grupo que mais lutou para que o país não tivesse uma religião oficial,
pois preconizavam sempre a separação total entre igreja e Estado. Esse
princípio batista foi o motivo de tanta perseguição: tanto os católicos quanto
os protestantes uniram a igreja ao Estado.
Dizem
os documentos batistas, na história da igreja batista, que “um grupo de
refugiados ingleses que foi para a Holanda em busca de liberdade religiosa,
liderado por John Smyth - que era pregador - e Thomas Helwys - advogado -,
organizou em Amsterdã, em 1609, uma igreja de doutrina batista, como era o
sonho dos dois líderes. John Smyth batizou-se e, em seguida, batizou os demais
fundadores da igreja, constituindo-se esta a primeira igreja organizada tendo
como espelho as doutrinas do Novo Testamento, inclusive o batismo do que crê,
mediante a profissão de fé em Jesus Cristo. A igreja se divide e John Smyth
pede filiação aos menonitas, sendo seguido pela maior parte dos membros. Uma
minoria resolveu manter a igreja com a liderança de Thomas Helwys. Após a morte
de Smyth, Helwys e seus seguidores regressam para a Inglaterra. Considerando as
raízes do nome Batista, a história começa com a organização da igreja em
Spitalfields, nos arredores de Londres, em 1612, por Thomas Helwys e seus
seguidores já batizados na igreja em Amsterdã. É esta igreja que agora inicia a
linhagem de igrejas batistas que começam a crescer na Inglaterra sob severa
perseguição por dissentirem da igreja oficial, a Igreja Anglicana. A
perseguição aos batistas e a outros grupos separatistas os levou a várias
partes do mundo e, em especial, às colônias da América do Norte, em busca da
liberdade religiosa. Dois ilustres homens são considerados fundadores das
igrejas batistas em solo americano: Roger Williams, que organizou a Primeira
Igreja Batista de Providence (em 1639) na colônia que ele fundou com o nome de
Rodhe Island, e John Clark, que organizou a Igreja Batista de Newport, também
em Rodhe Island e conhecida desde 1648. Os batistas se espalharam pelas
diversas colônias da América do Norte e foram influentes na formação da
constituição americana de 1781. ”[11]
Os
batistas no Brasil: os primeiros protestantes no Brasil não foram batistas, mas
huguenotes, perseguidos pela Igreja Católica na França. Em 1557, quarenta anos
após o primeiro ato de Lutero, chegou ao Rio de janeiro um grupo de Huguenotes
com o objetivo de fundar aqui uma colônia chamada França Antártica, que deveria
se caracterizar pela tolerância religiosa. Eram os primeiros protestantes a
pisar em terras brasileiras. Três pastores protestantes lideravam o grupo. Um
dos membros desta comitiva foi Villegagnon, que traiu o grupo, entregando-os às
autoridades contrarreformistas. Alguns conseguiram escapar, mas quatro deles,
Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André la Fon, foram presos
e condenados à morte. Eles foram presos não somente por aportarem no país que
era colônia portuguesa, mas por estarem difundindo o Evangelho da Graça, que
contrariava as doutrinas Romanas de salvação por fé e obras (o poder de Deus
necessitaria da ajuda do homem no processo de salvação), agarrando-se à
doutrina Bíblica defendida por Lutero, “Somente pela fé”.
Antes
de serem executados, porém, os protestantes eram obrigados a confessar sua
crença uma vez mais, pois era um direito do governador exigir dos súditos uma
confissão de fé. Era como uma última chance de renegar suas “heresias”, ou,
para que pudessem ser indiscutivelmente condenados. Foi-lhes dado um prazo de
doze horas para que escrevessem num documento tudo quanto criam. Nestas doze
horas aqueles quatro homens, com ajuda apenas de suas Bíblias (pois não
dispunham de outros livros com eles) escreveram o que seria a primeira
confissão de fé das Américas, mostrando aos clérigos jesuítas tudo aquilo no
que criam. Foi uma espécie de Credo, e eles sabiam que com ele estavam
assinando sua sentença de morte.
No
momento da execução o carrasco, por conhecer a vida piedosa daqueles homens,
recusou-se a executá-los. Impaciente, o padre que os acompanhava, José de
Anchieta, afastou o carrasco e ele mesmo pôs fim à vida daqueles homens[12]. Era uma manhã de
sexta-feira, 9 de fevereiro de 1558. Era aparentemente o fim do Protestantismo
em terras portuguesas. No entanto, somente em agosto de 1859 um norte-americano
presbiteriano chamado Ashbel Gree Simonton, de 26 anos, aportou no Rio e, após
se tronar um conhecedor da língua portuguesa, iniciou em 22 de abril de 1860,
aos domingos de manhã, uma escola bíblica. O primeiro brasileiro a se converter
à fé reformada (calvinista) foi Serafim Pinto Ribeiro, em 22 de junho de 1862.
Assim a história do protestantismo no Brasil está intimamente ligada à história
do presbiterianismo reformado.
Com
relação aos batistas, Thomas Jefferson Bowen era missionário americano na
Nigéria (África) trabalhando entre os nativos da tribo iorubá. Depois de algum
tempo na África, retornou aos EUA e foi enviado, em 1860, para o Brasil, uma
vez que muitos escravos que falavam o dialeto iorubá (língua corrente entre os
negros traficados) podiam ser alcançados. Oito meses depois, devido a problemas
de saúde e porque as autoridades o impediram de pregar o Evangelho, visto que
sua mensagem se distanciava dos ensinos católicos, até então a religião oficial
do país, Bowen precisou retornar ao seu país, desta vez em definitivo. Tempos
depois, um grupo de colonos norte-americanos sulistas, derrotados na guerra
entre o sul e o norte (1861-1865), desembarcou no Brasil, em Santa Bárbara
D’Oeste (SP). Grande parte destes colonos era de origem protestante e, em 10 de
setembro de 1871, eles organizaram a Primeira Igreja Batista em terras
brasileiras, sob a coordenação do pastor Richard Ratcliff. No início, os cultos
ainda eram em inglês, o que afastava os habitantes locais.
Em
1881 chegaram ao Brasil o missionário William Buck Bagby e sua esposa Anne.
Seguiram para Campinas, onde, no colégio Presbiteriano, iniciaram o aprendizado
da língua portuguesa. Um dos instrutores do casal foi o ex-padre Antônio
Teixeira de Albuquerque. Sacerdote católico na província de Alagoas, ele
converteu-se ao protestantismo sozinho, ao estudar a Bíblia. Depois de
abandonar a igreja de Roma, o ex-padre peregrinou pelo Brasil até chegar a
Campinas, onde se tornou o primeiro brasileiro a ser consagrado pastor batista.
Em
1882, quando foi organizada a Primeira Igreja Batista da Bahia, voltada para a
evangelização do Brasil, já existiam então as duas outras igrejas batistas,
organizadas por imigrantes norte-americanos, residentes na região de Santa
Bárbara D’Oeste e Americana (SP). A Convenção Batista Brasileira, em sua 89ª
Assembleia, após discutir por alguns anos a data correta para o início do
trabalho batista no Brasil, aprovou resolução de uma comissão especial nos
seguintes termos: “Reconhecemos que a inserção do trabalho batista no Brasil se
deu por duas vias: A via de imigração (1871) e a via de missão (1882) ”. Os
casais de missionários batistas norte-americanos, recém-chegados ao Brasil, os
pioneiros William Buck Bagby e Anne Luther Bagby e Zacharias Clay Taylor e Kate
Stevens Crawford Taylor, auxiliados pelo ex-padre Antônio Teixeira de
Albuquerque, batizado em Santa Bárbara D’Oeste, decidiram iniciar a sua missão
na cidade de Salvador, Bahia, com 250 mil habitantes. Ali chegaram no dia 31 de
agosto de 1882 e, no dia 15 de outubro, organizaram a Primeira Igreja Batista
do Brasil com cinco membros: os dois casais de missionários e o ex-padre
Antônio Teixeira. Nos primeiros 25 anos de trabalho, Bagby e Taylor, auxiliados
por outros missionários e por um número crescente de brasileiros, evangelistas e
pastores, já tinham organizado 83 igrejas, com aproximadamente 4.200 membros.
O
sucesso do trabalho no Nordeste encheu William Bagby de coragem e ele resolveu
partir para o Rio de Janeiro, onde fundou uma congregação no bairro do Estácio
que, logo de início, conseguiu a adesão de quatro pessoas. Com a abertura do
campo missionário brasileiro, graças ao sucesso de Bagby, as organizações
batistas americanas resolveram investir. Os obreiros americanos que aqui
chegavam traziam consigo o modelo de igreja que conheciam na sua terra natal, implantando
a estrutura eclesiástica americana. Além da estrutura cuidadosamente
organizada, as igrejas brasileiras fizeram questão de manter o modelo
congregacional de governo, caracterizado pela autonomia de cada igreja local -
uma marca dos batistas que predomina até hoje. Com o tempo, as comunidades foram
adaptando seus costumes à realidade brasileira, mas sempre mantendo a
identidade.
À
medida que as igrejas batistas se multiplicavam, surgiu a necessidade de
reafirmar o ideário do segmento. Essa tradição ideológica jamais se perdeu no
tempo, graças à estratégica propagação através de publicações como livros,
Bíblias, revistas de estudo e jornais. A tradição batista legou aos evangélicos
brasileiros outra preciosidade: o Cantor Cristão, que eternizou centenas de
hinos cantados até hoje por crentes de todo o país. Da primeira edição, de
1891, até hoje, as páginas do Cantor têm sido fonte de louvor e inspiração. Dos
hinos do acervo, mais de 100 foram compostos ou traduzidos pelo missionário e
músico judeu polonês Salomão Luiz Ginsburg, que viveu 37 anos no Brasil.
Ginsburg é considerado por muitos o mais importante hinologista brasileiro. Mas
também foi um evangelista de visão avançada para o seu tempo. Coube a ele o
mérito de ter sido o primeiro a imaginar uma associação que agrupasse todas as
igrejas da denominação em 1894. As ideias de Ginsburg acabaram influenciando a
história da Igreja Batista Brasileira. Também no início do século 20, as
igrejas passaram a se agrupar nas chamadas convenções, com o objetivo de gerir
causas comuns como o trabalho de missões e a manutenção de seminários, orfanatos,
asilos e colégios. Essa estrutura ampliou-se, buscando a cooperação entre as
igrejas. Surgiu assim a Convenção Batista Brasileira (CBB), que hoje abriga
mais de 6,5 mil igrejas da denominação, com cerca 7 mil pastores e mais de um
milhão de membros.
Genealogia
da PIBNC: William Buck Bagby e Anne Luther Bagby > Primeira Igreja Batista
de Niterói > Primeira Igreja Batista de São Gonçalo > Igreja Batista
Central de Trindade > Primeira Igreja Batista em Nova Cidade.
Lista
de declarações doutrinárias batistas (todas para reafirmar os mesmos pontos
principais da doutrina bíblia, como salvação, pecado, trindade, Bíblia etc.):
1609
– Os 20 Artigos
1610
– Os 38 Artigos
1612
– Os 100 Artigos
1646
– Primeira Confissão de Fé dos Batistas de Londres
1652
– Confissão de Savoy
1675
– Confissão Suíça
1689
– Confissão Batista de Fé dos Batistas de Londres
1742
– Confissão de Filadélfia
1833
– Confissão de New Hampshire
1923
– Artigos de Fé da União Batista Bíblica da América
1925
– Fé e Mensagem Batista da Convenção Batista do Sul dos EUA
1986
– Declaração doutrinária da Igreja Batista
[1] CARROLL, James Milton. O Rasto de Sangue. 2007, edição em letra
grande, p. 16-17. Disponível gratuitamente em http://www.solascriptura-tt.org/IgrejasNosSeculos/RastoDeSangue-JMCarroll.pdf
[2] Orígenes. In Rom. Com. 5,9: EH 249. Johannes Quasten, Patrología I, Biblioteca de Autores Cristianos 206, Quita Edición,
Madrid 1995, pág. 395.
[3] BREWSTER, David. The Edinburgh Encyclopaedia. Volume 3,
páginas 250 e 251. Disponível gratuitamente em
https://books.google.com.br/books?id=f-hEAQAAMAAJ&printsec=frontcover&dq=The+Edinburgh+Encyclopaedia,+volume+3,&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjwg_-rsYvVAhVBHZAKHTYlAuMQ6AEIJzAA#v=onepage&q&f=false
[4] MCCLINTOCK, John, STRONG, James. Cyclopaedia of Biblical, Theological, and
Ecclesiastical Literature, Volume 1, p. 210. Disponível gratuitamente em https://books.google.com.br/books?id=xNssAAAAYAAJ&printsec=frontcover&dq=McClintock+%26+Strong+volume+1&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi3qqfCl6jVAhXIkpAKHW9oCVsQ6AEIKjAA#v=onepage&q&f=false
[5] NEANDER,
Johann August Wilhelm. The history of the
Christian religion and Church during the three first centuries. Volume 1,
p. 370-371. Disponível gratuitamente em
https://books.google.com.br/books?id=bcIUAAAAQAAJ&pg=PA371&dq=Neander+volume+1+anabaptist&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjTsd3imajVAhWCj5AKHRXrD08Q6AEIJzAA#v=onepage&q&f=false
[6] Conforme informações disponíveis
em https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro_Conc%C3%ADlio_de_Constantinopla e
https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.
[7] Adaptado de http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-Traducoes/1asTraducoesSustentamTR-Helio.htm
[8] HOZJUSZ, Stanislaw. As últimas obras do autor, cuidadosamente
revistas. p. 219. Disponível gratuitamente em
https://books.google.com.br/books?id=9Y2uRJyfOIkC&redir_esc=y
[9] MOSHEIM, Johann Lorenz; MACLAINE,
Archibald. An Ecclesiastical History,
Ancient and Modern, from the Birth of Christ to the Beginning of the Eighteenth
Century. Volume 4, p. 443. Disponível gratuitamente em
https://books.google.com.br/books?id=zn4PAAAAIAAJ&printsec=frontcover&dq=An+Ecclesiastical+History,+Ancient+and+Modern,+from+the+Birth+of+Christ+to+the+Beginning+of+the+Eighteenth+Century;+Volume+4+by+Mosheim,+Johann+Lorenz;+Maclaine,+Archibald&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj455mpv_nTAhXElZAKHaefA-IQ6AEIKzAB#v=onepage&q&f=false
[10] Lista completa de perseguições
protestantes contra os anabatistas:
http://www.solascriptura-tt.org/IgrejasNosSeculos/PerseguicoesPorProtestantesInclusiveAosBatistas-DCloud.htm
[11] SOUZA, Sócrates Oliveira de
(Org.). Pacto e Comunhão – Documentos
Batistas. Rio de Janeiro: Convicção, 2010, 2ª ed. p. 57-58.
[12] REIS, Aníbal Pereira dos. O Santo que Anchieta Matou. São Paulo:
Caminho de Damasco, 1981, p. 38-40.
2 comentários:
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