sábado, 15 de julho de 2017

História da igreja batista a partir dos anabatistas

História dos Batistas

Muitos teólogos do meio batista creem que os mesmos são fruto da comunidade de cristãos advindos de John Smyth e Thomas Helwys. No entanto, esse comportamento em dizer que os batistas não são descendentes dos anabatistas veio do fato de estes serem duramente perseguidos pelos católicos e pelos protestantes, sendo presos e mortos por ambos. Este trabalho visa provar que os batistas modernos são descendentes diretos dos anabatistas da Antiguidade e Idade Média.

Os batistas não creem na sucessão apostólica. O ofício apostólico cessou com a morte dos apóstolos. Às suas igrejas, que Cristo prometeu uma contínua existência desde quando organizou a primeira delas durante o Seu ministério terrestre, Ele prometeu: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mat. 16:18). Quando Ele proferiu a Grande Comissão, que foi confiada à igreja para execução, Ele prometeu: “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. ” (Mat. 28:20). Esta Comissão - este trabalho - não foi dado aos apóstolos como indivíduos, mas a eles e aos demais presentes na sua capacidade de membros de Igreja. Os apóstolos e demais que o ouviram pronunciá-la, cedo morreram. Mas, sua igreja tem vivido através dos séculos, fazendo discípulos, batizando-os e ensinando-lhes a verdade - as doutrinas - que Ele comissionou à igreja em Jerusalém.[1] Este trabalho visa provar que os anabatistas são a igreja de Cristo, resistente às heresias até os dias de hoje.

Desde a fundação das igrejas, houveram divergências sobre a doutrina bíblia certa, o que gerou diversas brigas entre as igrejas. Um grupo começou a ser chamado de rebatizadores (anabatistas), pois rejeitavam o batismo de crianças, que já começaram a ser feitos no século II. Os anabatistas (“rebatizadores”) exigiam que uma pessoa que tinha sido batizada sem entender a doutrina correta teve um batismo inválido, devendo, portanto, ser rebatizada. Desta forma, diversos grupos podiam ser chamados de anabatistas, pois havia a necessidade de batizar aqueles que entendiam o que era a correta doutrina.

Desde a época de Tertuliano (160 d.C. – 220 d.C.) os anabatistas praticavam o rebatismo, pois, de acordo com eles, o batismo não era válido se fosse feito sem algum elemento essencial, tanto para os sujeitos do batismo, quanto aos administradores do batismo, ou no modo em que foi feito o batismo, tornando o rito de batismo completamente nulo; e, portanto, afirmavam que o batismo deles (dos anabatistas) era o único correto. Quase todos os pais da igreja (exceto Tertuliano) começaram a defender o batismo infantil, alegando que era uma prática desde os apóstolos.[2]

As características que os anabatistas já pregavam desde o século II é que só deveria ser batizado um crente em Cristo que reconhecesse que: 1. Que a igreja de Cristo na Terra seja uma assembleia de santos reais, e deve ser mantida pura dos ímpios. 2. Que nenhum homem nasça membro de uma igreja em particular, mas deve escolher voluntariamente. 3. Que o batismo só deve ser administrado aos adultos, em uma profissão pública de fé e arrependimento, por imersão. 4. Que todos os governantes não tenham autoridade para promulgar leis ou para impor obediência em matéria de religião. 5. Que os ministros da religião não tenham poder sobre as opiniões ou consciências de seus ouvintes, mas devem ser considerados meros professores. E, 6. Que o estabelecimento religioso e a forma de adoração, nas igrejas cristãs, devem ser congregacionais ou independentes.[3] A fonte deste pensamento era o evangelho de Marcos, 16.16: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.”. Assim, somente quem pode crer é que pode ser batizado, e, portanto, crianças não poderiam ser batizadas, pois não tem consciência do pecado e do evangelho.

A primeira vez que o termo “anabatista” é mencionado foi durante um cisma entre duas lideranças na igreja primitiva quanto ao batismo ser eficaz para a salvação, aplicando-se em crianças, e não ser eficaz para salvação, aplicando-se somente a quem tinha noção do pecado e do arrependimento. Os historiadores McClintock e Strong afirmam que “Na Ásia Menor e na África, onde por muito tempo rugiu amargamente o espírito da controvérsia, o batismo só foi considerado válido quando administrado na igreja correta. Tão grandes foram as disputas sobre a questão, que dois sínodos se convocaram para investigá-la. Um em Icônio e outro em Sínada da Frígia, os quais confirmaram a opinião da invalidade do batismo herético. Da Ásia passou a questão à África do Norte. Tertuliano concordou com a decisão dos concílios asiáticos em oposição à prática da igreja Romana. Agripino convocou um concílio em Cartago, o qual chegou a uma decisão semelhante aos da Ásia. Assim ficou a matéria até Estevão, bispo de Roma, no ano de 253, provocado pela ambição, que procedeu em excomungar os bispos da Ásia Menor, Capadócia, Galácia e Cilícia, aplicando-lhes os epítetos de rebatizadores e anabatistas. ”[4]

O historiador Johann August Wilhelm Neander também registra essa cisão, na criação do termo “anabatista”, mostrando que as igrejas erradas, quanto ao batismo, estava a de Roma e as outras que a seguiam. Sendo assim, a igreja de Roma excluiu, no ano de 225 d.C., as igrejas da Ásia. Ele faz o seguinte relato sobre estes acontecimentos: “Mas aqui, outra vez, foi um bispo romano, Estevão, que, instigado pelo espírito de arrogância eclesiástica, dominação e zelo sem conhecimento, ligou a este ponto (salvação pelo batismo) uma importância dominante. Daí, pelo fim do ano de 253, lavrou uma sentença de excomunhão contra os bispos da Ásia Menor, Capadócia, Galácia e Cilícia, estigmatizando-os como anabatistas, um nome, contudo, que eles podiam afirmar que não mereciam por seus princípios: porque não era o seu desejo administrar um segundo batismo àqueles que tinham sido batizados, mas disputavam que o prévio batismo dado por hereges não podia ser reconhecido como verdadeiro. Isto induziu Cipriano, o bispo [de Cartago] a propor o ponto para a discussão em dois sínodos reunidos em Cartago em 225 A.D., [tenso sido] um composto de 18, outro de 71 pastores, ambas as assembleias se declarando a favor das ideias de que o batismo de heréticos não devia ser considerado como válido. ”[5]

Hoje, quem pratica o batismo infantil são: igreja católica romana, igreja ortodoxa oriental, luteranos, anglicanos, metodistas, presbiterianos e reformados de um modo geral.

Desta forma, durante a criação da igreja católica, os anabatistas foram, possivelmente, o único grupo de resistência direta e contínua contra a doutrina católica por mil e duzentos anos ininterruptos. Pode-se dizer que a igreja católica começou, efetivamente, um dia após o término do Primeiro Concílio de Nicéia (20/05/325 - 19/06/325), quando foi finalizado o concílio. Embora os cristãos do mundo todo concordem com os dogmas deste concílio, o mesmo não pode ser declarado como doutrina batista, pois embora reconheça que Cristo seja Deus, o texto dá margem a dizer que o Cristo seja inferior ao Pai, pois diz que o Cristo é gerado na eternidade. Essas declarações podem dar ensejo a doutrinas contrárias à trindade (ou tri-unidade). O mesmo se pode dizer do Espírito Santo no Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.), que é aceito por todos os cristãos, mas que igualmente pode ensejar que o Espírito Santo seja inferior ao Pai. Também foi neste concílio que foi definido que só existia uma igreja, sendo ela “una, santa, católica (universal) e apostólica”. Portanto, os batistas preferem a Bíblia sempre.[6]

Um adendo sobre a Bíblias da época é que ainda não existia a Vulgata Latina, feita por Jerônimo no fim do século IV e início do século V, que até hoje é a única tradução aceita pela igreja católica romana. As traduções da época foram:
-Peshitta (“simples”, em siríaco), escrita em siríaco (versão simplificada do aramaico), feita em cerca do ano 150 d.C. As primeiras versões desta tradução foram copiados, possivelmente, dos próprios autógrafos, pois esta versão veio do mesmo local das principais igrejas, como a Ásia Menor e Síria. Os textos sobreviventes  mostram que haviam somente os 66 livros que comporiam a Bíblia da Reforma Protestante. Os manuscritos corrompidos são os posteriores aos anos 200 d.C.
- Antiga Latina (ou Vetus Latina), escrita em latim, cerca do ano 157 d.C. Esta tradução começou a ser feita em Cartago, na África, e foi feita de forma espontânea pelos cristãos. Portanto, existem hoje os seguintes manuscritos da Antiga Latina: Codex Bobbiensis (séc. IV), Codex Vercellensis (séc. IV), Codex Bezae (séc. V), Codex Monacensis 13 (séc. VI-VII) e Codex Vindobonensis (séc. VI). Tertuliano testifica de muitas cópias de uma tradução completa da Bíblia para o Latim, circulando por todo o Norte da África (onde fica Cartago), no ano 190 d.C. A tradução é literalista ao extremo, ao ponto de transliterar palavras gregas para o latim quando fica difícil traduzir o grego com perfeição. Durante a perseguição católica aos anabatistas na Europa, as cópias da bíblia Antiga Latina eram destruídas. A biblioteca dos Valdesnses, por exemplo, foi destruída no ano 1170, na qual haviam diversas cópias desta Bíblia. As cópias existentes hoje (cerca de 35 manuscritos) variam dos anos 300 aos anos 1200.
-Diatesseron, feito antes ano 160 d.C., que foi uma harmonização dos quatro evangelhos, em ordem cronológica. Foi escrito por Taciano da Assíria. Teodoreto (390 d.C. a 458 d.C.) encontrou e destruiu mais de duzentas cópias do Diatesseron que estavam circulando na Ásia Menor. O trabalho não sobreviveu em sua forma original, mas sim em comentários tais como o de Efraim. A análise dos comentários sobreviventes mostra que o Diatesseron, na sua forma original, sustenta o novo testamento presente na Bíblia da Reforma Protestante, diferente em alguns pontos da Vulgata Latina.[7]

Voltando ao histórico dos anabatistas, o sacerdote católico Stanislaw Hozjusz afirmou também a antiguidade dos anabatistas, que são anteriores à Reforma Protestante, pois mencionou que os anabatistas foram perseguidos por 1200 anos do século XVI, ou seja, desde os anos 300 d.C. Hozjusz disse que “se assim é, que na medida em que cada homem está mais pronto a sofrer a morte pela fé da sua seita, a sua fé deve ser julgada mais perfeita e mais segura, então não haverá fé mais certa e verdadeira do que os anabatistas, uma vez que não há nenhum [grupo religioso] agora, ou houve antes, durante esses mil e duzentos anos, que foram mais cruelmente castigados, ou que têm mais forte, firme e alegremente tomado o seu castigo, sim, ou se ofereceram a si mesmos, de sua própria vontade, para a morte, nunca tão terrível e dolorosa [quanto a deles].”[8]

Portanto, este sacerdote católico confirmou que, não só os anabatistas existiam desde o século III, mas igualmente que eles foram tão duramente perseguidos, principalmente na Europa, que se alguém fosse julgado por sua fé, os anabatistas seriam a fé verdadeira, tamanha era a alegria em ser castigado em nome de Cristo. Isso mostra que eles davam a vida por Deus alegremente, sem se preocupar com este mundo.

Outro escritor, Johann Lorenz von Mosheim, luterano, escreveu que antes da Reforma Protestante já existia na Europa pessoas com as mesmas doutrinas da igreja batista: “Antes de se levantarem Lutero e Calvino, estavam ocultas em quase todos os países da Europa pessoas que seguiam tenazmente os princípios dos modernos Batistas Holandeses”[9]. Estes batistas holandeses que Mosheim diz são o grupo fundado pelo teólogo anglicano John Smyth e pelo advogado Thomas Helwys. Eles fundaram a igreja batista em 1.603, na Grã-Bretanha, e, por causa das perseguições dos anglicanos, refundaram a igreja batista em 1.609 na Holanda do Norte.

O que a história mostra, portanto, é que os anabatistas existem desde o século II, como grupo que resistiu às doutrinas erradas ensinadas no meio cristão, sobrevivendo pelos séculos. Com a Reforma Protestante, tanto luteranos, calvinistas, zwinglianos e anglicanos perseguiram os anabatistas[10].

Os batistas conseguiram viver com maior liberdade nos Estados Unidos da América. Foram o grupo que mais lutou para que o país não tivesse uma religião oficial, pois preconizavam sempre a separação total entre igreja e Estado. Esse princípio batista foi o motivo de tanta perseguição: tanto os católicos quanto os protestantes uniram a igreja ao Estado.

Dizem os documentos batistas, na história da igreja batista, que “um grupo de refugiados ingleses que foi para a Holanda em busca de liberdade religiosa, liderado por John Smyth - que era pregador - e Thomas Helwys - advogado -, organizou em Amsterdã, em 1609, uma igreja de doutrina batista, como era o sonho dos dois líderes. John Smyth batizou-se e, em seguida, batizou os demais fundadores da igreja, constituindo-se esta a primeira igreja organizada tendo como espelho as doutrinas do Novo Testamento, inclusive o batismo do que crê, mediante a profissão de fé em Jesus Cristo. A igreja se divide e John Smyth pede filiação aos menonitas, sendo seguido pela maior parte dos membros. Uma minoria resolveu manter a igreja com a liderança de Thomas Helwys. Após a morte de Smyth, Helwys e seus seguidores regressam para a Inglaterra. Considerando as raízes do nome Batista, a história começa com a organização da igreja em Spitalfields, nos arredores de Londres, em 1612, por Thomas Helwys e seus seguidores já batizados na igreja em Amsterdã. É esta igreja que agora inicia a linhagem de igrejas batistas que começam a crescer na Inglaterra sob severa perseguição por dissentirem da igreja oficial, a Igreja Anglicana. A perseguição aos batistas e a outros grupos separatistas os levou a várias partes do mundo e, em especial, às colônias da América do Norte, em busca da liberdade religiosa. Dois ilustres homens são considerados fundadores das igrejas batistas em solo americano: Roger Williams, que organizou a Primeira Igreja Batista de Providence (em 1639) na colônia que ele fundou com o nome de Rodhe Island, e John Clark, que organizou a Igreja Batista de Newport, também em Rodhe Island e conhecida desde 1648. Os batistas se espalharam pelas diversas colônias da América do Norte e foram influentes na formação da constituição americana de 1781. ”[11]

Os batistas no Brasil: os primeiros protestantes no Brasil não foram batistas, mas huguenotes, perseguidos pela Igreja Católica na França. Em 1557, quarenta anos após o primeiro ato de Lutero, chegou ao Rio de janeiro um grupo de Huguenotes com o objetivo de fundar aqui uma colônia chamada França Antártica, que deveria se caracterizar pela tolerância religiosa. Eram os primeiros protestantes a pisar em terras brasileiras. Três pastores protestantes lideravam o grupo. Um dos membros desta comitiva foi Villegagnon, que traiu o grupo, entregando-os às autoridades contrarreformistas. Alguns conseguiram escapar, mas quatro deles, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André la Fon, foram presos e condenados à morte. Eles foram presos não somente por aportarem no país que era colônia portuguesa, mas por estarem difundindo o Evangelho da Graça, que contrariava as doutrinas Romanas de salvação por fé e obras (o poder de Deus necessitaria da ajuda do homem no processo de salvação), agarrando-se à doutrina Bíblica defendida por Lutero, “Somente pela fé”.

Antes de serem executados, porém, os protestantes eram obrigados a confessar sua crença uma vez mais, pois era um direito do governador exigir dos súditos uma confissão de fé. Era como uma última chance de renegar suas “heresias”, ou, para que pudessem ser indiscutivelmente condenados. Foi-lhes dado um prazo de doze horas para que escrevessem num documento tudo quanto criam. Nestas doze horas aqueles quatro homens, com ajuda apenas de suas Bíblias (pois não dispunham de outros livros com eles) escreveram o que seria a primeira confissão de fé das Américas, mostrando aos clérigos jesuítas tudo aquilo no que criam. Foi uma espécie de Credo, e eles sabiam que com ele estavam assinando sua sentença de morte.

No momento da execução o carrasco, por conhecer a vida piedosa daqueles homens, recusou-se a executá-los. Impaciente, o padre que os acompanhava, José de Anchieta, afastou o carrasco e ele mesmo pôs fim à vida daqueles homens[12]. Era uma manhã de sexta-feira, 9 de fevereiro de 1558. Era aparentemente o fim do Protestantismo em terras portuguesas. No entanto, somente em agosto de 1859 um norte-americano presbiteriano chamado Ashbel Gree Simonton, de 26 anos, aportou no Rio e, após se tronar um conhecedor da língua portuguesa, iniciou em 22 de abril de 1860, aos domingos de manhã, uma escola bíblica. O primeiro brasileiro a se converter à fé reformada (calvinista) foi Serafim Pinto Ribeiro, em 22 de junho de 1862. Assim a história do protestantismo no Brasil está intimamente ligada à história do presbiterianismo reformado.

Com relação aos batistas, Thomas Jefferson Bowen era missionário americano na Nigéria (África) trabalhando entre os nativos da tribo iorubá. Depois de algum tempo na África, retornou aos EUA e foi enviado, em 1860, para o Brasil, uma vez que muitos escravos que falavam o dialeto iorubá (língua corrente entre os negros traficados) podiam ser alcançados. Oito meses depois, devido a problemas de saúde e porque as autoridades o impediram de pregar o Evangelho, visto que sua mensagem se distanciava dos ensinos católicos, até então a religião oficial do país, Bowen precisou retornar ao seu país, desta vez em definitivo. Tempos depois, um grupo de colonos norte-americanos sulistas, derrotados na guerra entre o sul e o norte (1861-1865), desembarcou no Brasil, em Santa Bárbara D’Oeste (SP). Grande parte destes colonos era de origem protestante e, em 10 de setembro de 1871, eles organizaram a Primeira Igreja Batista em terras brasileiras, sob a coordenação do pastor Richard Ratcliff. No início, os cultos ainda eram em inglês, o que afastava os habitantes locais.

Em 1881 chegaram ao Brasil o missionário William Buck Bagby e sua esposa Anne. Seguiram para Campinas, onde, no colégio Presbiteriano, iniciaram o aprendizado da língua portuguesa. Um dos instrutores do casal foi o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque. Sacerdote católico na província de Alagoas, ele converteu-se ao protestantismo sozinho, ao estudar a Bíblia. Depois de abandonar a igreja de Roma, o ex-padre peregrinou pelo Brasil até chegar a Campinas, onde se tornou o primeiro brasileiro a ser consagrado pastor batista.

Em 1882, quando foi organizada a Primeira Igreja Batista da Bahia, voltada para a evangelização do Brasil, já existiam então as duas outras igrejas batistas, organizadas por imigrantes norte-americanos, residentes na região de Santa Bárbara D’Oeste e Americana (SP). A Convenção Batista Brasileira, em sua 89ª Assembleia, após discutir por alguns anos a data correta para o início do trabalho batista no Brasil, aprovou resolução de uma comissão especial nos seguintes termos: “Reconhecemos que a inserção do trabalho batista no Brasil se deu por duas vias: A via de imigração (1871) e a via de missão (1882) ”. Os casais de missionários batistas norte-americanos, recém-chegados ao Brasil, os pioneiros William Buck Bagby e Anne Luther Bagby e Zacharias Clay Taylor e Kate Stevens Crawford Taylor, auxiliados pelo ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, batizado em Santa Bárbara D’Oeste, decidiram iniciar a sua missão na cidade de Salvador, Bahia, com 250 mil habitantes. Ali chegaram no dia 31 de agosto de 1882 e, no dia 15 de outubro, organizaram a Primeira Igreja Batista do Brasil com cinco membros: os dois casais de missionários e o ex-padre Antônio Teixeira. Nos primeiros 25 anos de trabalho, Bagby e Taylor, auxiliados por outros missionários e por um número crescente de brasileiros, evangelistas e pastores, já tinham organizado 83 igrejas, com aproximadamente 4.200 membros.

O sucesso do trabalho no Nordeste encheu William Bagby de coragem e ele resolveu partir para o Rio de Janeiro, onde fundou uma congregação no bairro do Estácio que, logo de início, conseguiu a adesão de quatro pessoas. Com a abertura do campo missionário brasileiro, graças ao sucesso de Bagby, as organizações batistas americanas resolveram investir. Os obreiros americanos que aqui chegavam traziam consigo o modelo de igreja que conheciam na sua terra natal, implantando a estrutura eclesiástica americana. Além da estrutura cuidadosamente organizada, as igrejas brasileiras fizeram questão de manter o modelo congregacional de governo, caracterizado pela autonomia de cada igreja local - uma marca dos batistas que predomina até hoje. Com o tempo, as comunidades foram adaptando seus costumes à realidade brasileira, mas sempre mantendo a identidade.

À medida que as igrejas batistas se multiplicavam, surgiu a necessidade de reafirmar o ideário do segmento. Essa tradição ideológica jamais se perdeu no tempo, graças à estratégica propagação através de publicações como livros, Bíblias, revistas de estudo e jornais. A tradição batista legou aos evangélicos brasileiros outra preciosidade: o Cantor Cristão, que eternizou centenas de hinos cantados até hoje por crentes de todo o país. Da primeira edição, de 1891, até hoje, as páginas do Cantor têm sido fonte de louvor e inspiração. Dos hinos do acervo, mais de 100 foram compostos ou traduzidos pelo missionário e músico judeu polonês Salomão Luiz Ginsburg, que viveu 37 anos no Brasil. Ginsburg é considerado por muitos o mais importante hinologista brasileiro. Mas também foi um evangelista de visão avançada para o seu tempo. Coube a ele o mérito de ter sido o primeiro a imaginar uma associação que agrupasse todas as igrejas da denominação em 1894. As ideias de Ginsburg acabaram influenciando a história da Igreja Batista Brasileira. Também no início do século 20, as igrejas passaram a se agrupar nas chamadas convenções, com o objetivo de gerir causas comuns como o trabalho de missões e a manutenção de seminários, orfanatos, asilos e colégios. Essa estrutura ampliou-se, buscando a cooperação entre as igrejas. Surgiu assim a Convenção Batista Brasileira (CBB), que hoje abriga mais de 6,5 mil igrejas da denominação, com cerca 7 mil pastores e mais de um milhão de membros.

Genealogia da PIBNC: William Buck Bagby e Anne Luther Bagby > Primeira Igreja Batista de Niterói > Primeira Igreja Batista de São Gonçalo > Igreja Batista Central de Trindade > Primeira Igreja Batista em Nova Cidade.

Lista de declarações doutrinárias batistas (todas para reafirmar os mesmos pontos principais da doutrina bíblia, como salvação, pecado, trindade, Bíblia etc.):
1609 – Os 20 Artigos
1610 – Os 38 Artigos
1612 – Os 100 Artigos
1646 – Primeira Confissão de Fé dos Batistas de Londres
1652 – Confissão de Savoy
1675 – Confissão Suíça
1689 – Confissão Batista de Fé dos Batistas de Londres
1742 – Confissão de Filadélfia
1833 – Confissão de New Hampshire
1923 – Artigos de Fé da União Batista Bíblica da América
1925 – Fé e Mensagem Batista da Convenção Batista do Sul dos EUA
1986 – Declaração doutrinária da Igreja Batista




[1] CARROLL, James Milton. O Rasto de Sangue. 2007, edição em letra grande, p. 16-17. Disponível gratuitamente em http://www.solascriptura-tt.org/IgrejasNosSeculos/RastoDeSangue-JMCarroll.pdf
[2] Orígenes. In Rom. Com. 5,9: EH 249. Johannes Quasten, Patrología I, Biblioteca de Autores Cristianos 206, Quita Edición, Madrid 1995, pág. 395.
[3] BREWSTER, David. The Edinburgh Encyclopaedia. Volume 3, páginas 250 e 251. Disponível gratuitamente em https://books.google.com.br/books?id=f-hEAQAAMAAJ&printsec=frontcover&dq=The+Edinburgh+Encyclopaedia,+volume+3,&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjwg_-rsYvVAhVBHZAKHTYlAuMQ6AEIJzAA#v=onepage&q&f=false
[4] MCCLINTOCK, John, STRONG, James. Cyclopaedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature, Volume 1, p. 210. Disponível gratuitamente em https://books.google.com.br/books?id=xNssAAAAYAAJ&printsec=frontcover&dq=McClintock+%26+Strong+volume+1&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi3qqfCl6jVAhXIkpAKHW9oCVsQ6AEIKjAA#v=onepage&q&f=false
[5] NEANDER, Johann August Wilhelm. The history of the Christian religion and Church during the three first centuries. Volume 1, p. 370-371. Disponível gratuitamente em https://books.google.com.br/books?id=bcIUAAAAQAAJ&pg=PA371&dq=Neander+volume+1+anabaptist&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjTsd3imajVAhWCj5AKHRXrD08Q6AEIJzAA#v=onepage&q&f=false
[6] Conforme informações disponíveis em https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro_Conc%C3%ADlio_de_Constantinopla e https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.
[7] Adaptado de http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-Traducoes/1asTraducoesSustentamTR-Helio.htm
[8] HOZJUSZ, Stanislaw. As últimas obras do autor, cuidadosamente revistas. p. 219. Disponível gratuitamente em https://books.google.com.br/books?id=9Y2uRJyfOIkC&redir_esc=y
[9] MOSHEIM, Johann Lorenz; MACLAINE, Archibald. An Ecclesiastical History, Ancient and Modern, from the Birth of Christ to the Beginning of the Eighteenth Century. Volume 4, p. 443. Disponível gratuitamente em https://books.google.com.br/books?id=zn4PAAAAIAAJ&printsec=frontcover&dq=An+Ecclesiastical+History,+Ancient+and+Modern,+from+the+Birth+of+Christ+to+the+Beginning+of+the+Eighteenth+Century;+Volume+4+by+Mosheim,+Johann+Lorenz;+Maclaine,+Archibald&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj455mpv_nTAhXElZAKHaefA-IQ6AEIKzAB#v=onepage&q&f=false
[10] Lista completa de perseguições protestantes contra os anabatistas: http://www.solascriptura-tt.org/IgrejasNosSeculos/PerseguicoesPorProtestantesInclusiveAosBatistas-DCloud.htm
[11] SOUZA, Sócrates Oliveira de (Org.). Pacto e Comunhão – Documentos Batistas. Rio de Janeiro: Convicção, 2010, 2ª ed. p. 57-58.
[12] REIS, Aníbal Pereira dos. O Santo que Anchieta Matou. São Paulo: Caminho de Damasco, 1981, p. 38-40.