quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Adepto - parte 6

Quando queremos aprender muito sobre alguma coisa, a informação entra rápida e se prende como cola em nossas mentes. Assim era aprender Magia Negra.

Para a maioria das Ordens de magia do mundo, a Magia Negra era aquela que envolvia morte, como criar mortos-vivos, retirar a vida das pessoas, colocar doenças nelas, invocar a presença de demônios. Para a Ordem da Luz Interior, qualquer magia voltada para o Mal, para a morte, para a destruição, pura e simples, podia ser encarada como Magia Negra.

Enquanto lia, Alebrian tentava esquecer esses mandamentos que atrapalhavam o aprendizado. Ficou horas lendo, e só percebeu a fome quando o estômago doía. Estava cheio dos alimentos mágicos. Pareciam que tinham sempre o mesmo gosto. Tudo comum. Normal demais. Desceu e fez uma refeição com as últimas moedas que tinha. O melhor vinho (que era pior que a maioria dos vinhos), pão com carne, ensopado de legumes, e uma maçã. Acabou o dinheiro, mas estava satisfeito pela refeição com gosto de comida de verdade.

Precisava de mais dinheiro. Voltou a gritar pela vila, dizendo que era curandeiro. Continuou cobrando o mesmo valor de uma moeda de cobre por pessoa.

Em dois dias, juntou o necessário para voltar para a estrada. Comprou um jumento doente por um preço bem barato, e curou-o. Na viagem, percebeu que precisava fazer experiências de alquimia, para saber se estava aprendendo direito. Coletava plantas e guardava tudo. Lia enquanto viajava, ignorando seu redor.

Ouviu um zumbido e uma dor horrível na coxa. Era uma flecha. Caiu do jumento e olhava em volta. Viu um homem, magro e baixo, com uma armadura de couro, já surrada pelo uso. Olhos furtivos castanhos, pele clara, e uma boca fechada e sisuda. Aproximava-se lentamente, pé após pé, de lado, com outra flecha já pronta, apontada para a cabeça de Alebrian.

Ele perguntava, cheio de dor, o que era isso. Porque isso estava acontecendo. O estranho disse que Alebrian era um ladrão de magos, que foi contratado para pegar o grimório de volta. Alebrian tentou ficar de pé, mas a dor era enorme. Latejava a dor até a coluna, e a perna toda ficava fraca por causa da dor no músculo da coxa.

Era preciso arriscar. Podia arrancar a flecha, e curar-se. Mas o mercenário na sua frente pegaria o grimório e fugiria. Não pensou duas vezes. Usaria seu conhecimento adquirido na Grã-Ordem das Quatro Cores. Era necessário. Olhou para o mercenário enquanto falava as palavras do idioma dos Precursores, os primeiros a usarem magia, há séculos atrás. Um leve mexer de dedos, e o mercenário olhava assustado para baixo.

O mercenário transformou-se em uma estátua de pedra, com o rosto torcido pela dor.

Alebrian reuniu coragem. Puxou a flexa de uma vez só, quase sem força, por causa da magia feita. Parecia que a dor não poderia aumentar, mas aumentou! Latejava mais ainda, até a ponta do pé. A coluna refletia a dor, como se fosse um choque elétrico.

Tentou se concentrar, apertando a grama do chão por causa da dor que sentia. Concentrou-se e começou a fechar a ferida. Não foi completa. Precisava realizar o feitiço mais uma vez, mas estava cansado demais para isso.

Ficou ali, deitado, se recobrando. O sol queimava a pele, deixando-o suado e pegajoso. Mais uma vez fez o feitiço, e curou-se. Levantou, montou no jumento, ajeitou tudo e continuou o caminho. Se revertesse a magia feita, com certeza o mercenário o mataria. Tinha que deixá-lo ali mesmo.

Continuou seu caminho.

Depois de cinco minutos, Alebrian voltou à estátua. Pegou os pertences, as armas, a armadura, e levou para si. Alguém roubaria. Ele se apropriou legalmente, pois a maioria das leis do reino de Yonjar permitiam que a vítima fosse indenizada pelos bens do agressor. Mesmo sem um juíz para dizer se era justo ou não, ele executou a lei.

O que um juiz sabe de justiça? Para Alebrian, a justiça está acima dos homens. Ele podia invocar a justiça na hora que quisesse. Afinal, ele era um Adepto da Ordem da Luz Interior. Só os mais bondosos podem pertencer à ela. Ele era justo e bom. Sempre.

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