Adentrar um salão sabendo que será condenado dá uma sensação de
impotência. Nada do que você fizer ou disser vai adiantar. Todos te
declararão culpado, por tudo. Era só isso que Alebrian pensava.
Cinco
mestres estavam à sua frente, numa mesa de madeira trabalhada por algum
artista. Pés de bronze retorcido. Todos os cinco em tronos de platina,
ouro e prata. Alebrian ficava em pé, em frente à eles, usando uma
corrente de Ferro-Frio. O único material imune à magia que se tinha
notícia. Nem fazer mágicas era possível, quando o Ferro-Frio tocava a
sua pele.
Em silêncio por um minuto, que pareciam horas, o
Grão-Mestre falava com ele que os guardas haviam contado à ele sobre a
tentativa de realizar magias sem permissão.
Alebrian gelou de novo. Não acreditava no que ouvia.
Ele
perguntava da morte de Turima. O Mestre da Água pediu a palavra e
contou à Alebrian que ela teve o triste azar de cair numa estaca. Mas
que isso não era da conta direta dele. Ele estava ali para ser julgado
pelo delito de realizar magia sem permissão.
As pernas dele voltaram à ter força. Conseguia sentir novamente o chão duro e frio da sala. Parecia que antes estava dormente.
Alebrian
não conseguia raciocinar direito. Imaginava que devia ser um teste. A
corrente não permitiria fazer magias para mentir, mas os Mestres não
poderiam ler a mente dele, pelo menos.
Pensar em si mesmo como assassino não era bom naquele momento.
Respirou
fundo, como quem pode finalmente voltar à respiração depois de um
mergulho profundo. Prestava atenção na acusação. Mas não acreditava no
que ouvia. Ele realizou algumas magias no corpo morto de Turima. E
magias sobre corpos mortos são necromancia. Magia Negra.
O
Grão-Mestre, presidindo a sessão, deu-lhe permissão de falar. Ele
alegava que estava tentando realizar magias de cura nela. O Mestre do Ar
disse que qualquer pessoa sabe que magias de cura não funcionam em
mortos. Alebrian diz que não tinha percebido que ela estava morta.
O
Mestre da Terra deu um soco na mesa, apontou rapidamente para Alebrian,
gritando com ele que era um absurdo, era um ultraje, ele dizer que não
tinha percebido que o corpo atravessado por uma estaca não estava morto.
Alebrian tentou ficar calmo. Disse que já tinha visto pessoas com
lanças atravessadas no corpo, e que ainda falavam e gemiam.
O Mestre do Fogo limitou-se à perguntar onde ele tinha visto isso. Ele era jovem demais para a guerra.
Alebrian
sabia que não poderia mentir. Quem mente, trai a si mesmo. Trai o Bem,
trai a Luz. Ele disse que trabalhava curando as pessoas. Tinha aprendido
isso com tratadores de doenças e ferimentos. Como ele vivia em Gatar,
conhecia muitas pessoas que viviam do comércio e de outros serviços.
Mandaram Alebrian esperar numa das celas. Eles discutiriam sobre o assunto.
Duas
horas depois, Alebrian saiu de sua cela. Não era como nas cidades por
onde já tinha passado. A cela era limpa, com uma cama de feno. Nas
cidades, diziam que as celas eram cheias de ratos e insetos, com corpos
mortos misturados aos vivos. Essa cena lhe rendia um pavor que quase
aparecia nos olhos.
Novamente com uma corrente de Ferro-Frio, um dos guardas o coloca em frente aos Mestres da Grã-Ordem.
Recebeu a sentença com papitações. Seu coração pulava até a garganta. Parecia que podia sentir.
Ele era inocente de realizar Magia Negra.
Mas
tinha realizado magia sem permissão. Era culpado em uma infração grave.
Sua pena era o trabalho forçado no campo de animais, todas as noites,
por um ano.
Dias depois, pensava consigo mesmo, enquanto levava
as ovelhas para comer ração, que trabalhar com os animais não era ruim.
Ele já tinha feito isso. Mas ele começava quando anoitecia. Os animais
são difíceis de tratar nessas horas.
Mesmo tendo feito magias de
cura para tentar salvar Turima, ele violou uma regra. As regras serviam
para trazer ordem ao caos. Assim era ali dentro, daquelas paredes de
rocha e ferro.
As regras valem mais do que salvar a vida de Turima.
Naquele
ano, ele entendeu que a Grã-Ordem só penalizava quem era pego num
delito. Os que realizavam magia sem permissão eram muitos. Mas não eram
pegos no momento do delito.
Ali ele não deveria ser obediente. Ele deveria ser esperto. E tinha um ano para planejar como fazer isso.
Lembrou-se naquela noite da sentença, parte por parte. Ele não era um assassino. Não para eles.
Mas a Luz cobraria seu preço em breve.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
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