Seu primeiro dia na Grã-Ordem das Quatro Cores foi atípico. Um dos
Mestres analisou-o magicamente, para determinar se ele teria capacidade
de realizar magias. Menos de um por cento da população tem essa
capacidade.
Só isso. Mais nada. Sem perguntas.
Enquanto mandava-o embora, apenas o advertiu que o verdadeiro teste é o dia-a-dia dentro dos muros.
Tudo
lá tinha quatro cores: branco para o ar, vermelho para o fogo, verde
para a terra e azul para a água. Decorações, roupas, flâmulas... tudo.
Os
mestres usavam sempre algo para distingui-los dos demais. Um cordão com
um pedra preciosa. Os mestres do ar usavam um diamante, os mestres do
fogo usavam um rubi, os mestres da terra usavam uma esmeralda e os
mestres da água usavam uma safira.
No dia-a-dia, como tinha dito
aquele Mestre que avaliou Alebrian, havia muito sofrimento. Acordar
cedo, dormir tarde, pressa para comer e vestir, aulas e mais aulas,
testes, horas enfurnado em laboratórios fumacentos com os professores de
alquimia. Seu nariz ardia, seus olhos ardiam. Dor de cabeça constante.
E só tinha passado uma semana.
Precisava
fazer algo que sempre achou "sujo": criar uma política com alguém mais
poderoso. Se ele fizesse alguém ser humilhado, com certeza alguns alunos
se aproximariam dele. Os maus gostam dos maus.
Os alunos mais
antigos não conversavam muito com os novatos. Sendo ele um noviço, não
tinha nada a oferecer à eles. Quem sabe um pouco de trabalho
semi-escravo, em troca de conhecimento.
As pessoas são más por
natureza. Desde bebê, o homem é egoísta, mau, cruel. A Ordem da Luz
Interior serve para mostrar que o caminho do bem é seguido por decisão
própria, que vai contra a real natureza humana. Os deuses criaram as
pessoas, mas são as pessoas que criam seus próprios deuses, com seus
desejos carnais e efêmeros.
Ali havia muito Mal. Pelo menos em
comparação à sua Ordem, ali era terrível. Penalidades comuns eram o
castigo físico com chicotes (em público), transformação em pedra e o
pior: perder a capacidade de realizar magias. Para sempre.
Obediência
total era exigida. No entanto, com o decorrer do tempo, os obedientes
sofriam mais. Tinham assoberbação de trabalho e os mestres chamavam os
alunos para cumprir tarefas serviçais. Tudo por um pouco de conhecimento
à mais.
Alebrian percebeu, com o decorrer de dois meses, que o
importante não era só o conhecimento. Era usar esse poder para atingir
seus objetivos de qualquer maneira.
Ele pensou em criar uma aura
de mistério em torno de si. Usando magia, leu a mente de alguns alunos,
até descobrir quem menos gostava dele. Turima, uma aluna quatro anos
mais velha que ele (e 3 anos mais antiga na Grã-Ordem que ele)
simplesmente não o suportava. Sem motivos.
Fingiu tropeçar em
Turima, rasgando um pedaço da túnica dela. Ela virou rapidamente, vendo o
que acontecia com sua roupa. Olhou com uma raiva para ele, caído no
chão, de quatro, como um cachorro.
Ela se apossou de um estado de
fúria, e começou a gritar com ele. Xingava-o com todos os nomes que ele
conhecia e não conhecia. Ele não tinha muita imaginação quanto à isso.
Apenas gritou "Sua idiota, pare de latir como um... coiote!" e fugiu
pelos corredores largos da torre lateral.
Turima fez um gesto
rápido com a mão, abriu um buraco na parede, que se fechou instantes
depois dela ter passado. Ela encontrou-o parado na parte de baixo da
traseira da torre, onde se criavam bois. Ela saltou sobre ele.
Mas não era ele. Era um espantalho com as roupas dele. Com uma estaca por dentro.
Um
remorsso bateu horrivelmente sobre ele. Ele era culpado, mesmo sem
saber da estaca. Ele colocou Turima em risco. Ele matou Turima. Tirar
uma vida. Assassinar.
Começaram a juntar pessoas em volta, e
ninguém acreditava no que via. O sangue escorria sem parar. Uma das
marcas de sangue parecia um rubi sobre a túnica. Mas a mancha se
espalhou rapidamente.
Agora ele só pensava em ajudá-la. Jamais
previu que isso aconteceria. Ele mesmo não tinha visto a estaca. Só
vestiu o espantalho por cima, com roupas como a dele.
Virou a
estaca, fazendo o corpo cair junto. Puxou a estaca e tentou curá-la com
magia. Poucos ali sabiam mágicas de cura. Ficou tão exausto que
desmaiou.
Acordou no quarto dos feridos. Pareciam dias, mas foi
apenas uma hora. Um guarda chegou e apenas avisou que ele deveria ir à
sala dos Mestres.
Gelou o sangue. Engoliu em seco e quase desmaiou. Haveria um julgamento.
Afinal, ele era um assassino.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
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