Viajar pelo mundo, e voltar à torre. Esse lema foi dito pela primeira
vez por Azan-Kal. Claro que ele se referia ao fato de nascermos e
morrermos. Tinha tudo a ver. Pelo menos parecia.
Mas viajar pelo
mundo não parecia mais tão agradável assim. Levar a Luz para os homens
era nobre, mas difícil. E o problema de aprender era saber selecionar o
que deveria ser praticado e o que deveria ser só lembrado.
Suas
magias eram simples demais. Sabia curar, criar alimentos ou purificar o
que achasse pelo caminho, saber se havia perigos por perto... ler a
mente das pessoas. E mais algumas outras coisas.
Magia negra, nem pensar.
Pensar nisso podia corromper a alma. Era perigoso. Era a magia mais poderosa, segundo diziam. Mas tudo tem seu preço.
Passando
na Vila dos Pescadores, bem ao sul de Gatar, a "maior cidade do mundo".
Um povo simples, com um cheiro de peixe em todos os lugares. Dava
náuseas ficar mais de uns minutos na vila.
Procurou uma praça
pública. Havia um mercado de produtos das plantações bem longe das
barracas de peixe. Cheiro horrível. Não dava para se acostumar.
Numa
das barracas, se consultou sobre a existência de magos na vila. Havia
um, que vendia seus serviços à preços módicos. Chegando numa casa de
madeira bem feita, levemente ornamentada com plantas, bateu à porta. Foi
recebido por um serviçal.
Enquanto se apresentava, o senhor de
cabelos grisalhos abriu um sorriso. Dizia ser amigo de um mago já morto,
que pertenceu à Ordem também. Alebrian não se recordava do nome dado.
Mas assentiu.
Alebrian procurava conhecimento mágico. Mais poder
era necessário para combater as Trevas. Adquirir poder fora da Ordem era
necessário. Recebeu um pergaminho, após pagar umas moedas de prata. Uma
magia muito útil para ele. Poderia vasculhar os pensamentos das
pessoas. Os seus inimigos seriam descobertos, e os criminosos seriam
detidos.
Isso era pouco. Depois de aprender como fazer o feitiço,
destruiu o pergaminho no fogo da lareira de uma taverna. Ninguém
reparou. Era um Adepto da Ordem da Luz Interior. Não oferecia perigo.
O
povo amava e odiava a Ordem. Uma guardiã do bem e dos bons costumes do
povo. Uma mãe que vivia repreendendo os filhos. Era uma visão dualista.
Diziam que os criminosos eram cobaias em experiências mágicas. Nunca
houve prova disso.
Alebrian entendia cada vez mais que era
necessário buscar poder. Mais poder. Para proteger o seu amado povo do
Mal. Juntar-se às outras Ordens era proibido. Nenhuma delas aceitava
adeptos de outras.
Ele precisava mudar de roupa.
Seu
dinheiro estava acabando, principalmente depois que comprou roupas
novas. Vendeu a anterior, e trocou o cajado por um punhal. Meio usado,
mas inteiro. Viajou para o norte, onde ficava a Grã-Ordem das Quatro
Cores. Sabiam como ninguém a controlar as forças da natureza.
Numa
das pequenas vilas próximas da Grã-Ordem, perguntava como poderia
entrar. Alguns riram dele, pelo aspecto franzino e humilde. Um senhor o
informou que faltava uns dias para a Festa da Entrada. Nessa festa, ele
poderia tentar entrar pelas portas de ferro.
Seu dinheiro estava
no fim. Trabalhos físicos estavam fora de cogitação. Seu corpo não
aguentaria o sol e a enxada para capinar. Seu conhecimento não era útil.
Não entre pessoas tão simples.
Viu um aleijado. Lembrou-se da
instrução de tratamento das doenças anatômicas. Pegou suas ferramentas
de medicina, e gritava pelas praças: "curandeiro!", "curandeiro!".
Formou-se
uma fila atrás dele. Metade do povo parecia reclamar de alguma coisa.
Usava seu conhecimento para curar, mas era-lhe proibido cobrar. Violar
seu voto era o mesmo que violar a si próprio.
Alguns, mais
agradecidos que outros, deixavam presentes, pelo serviço gratuito. Pães e
frutas não faltaria à noite. Até um frango cozido foi dado por uma
senhora que criava galinhas e tinha uma ferida no tornozelo que não
cicatrizava nunca.
Conhecer ervas era útil para trabalhar.
Lembrou-se
que nunca tinha trabalhado de verdade. Quando criança, ajudava o pai
com as ovelhas. Mas isso não era nada em comparação à ganhar por seu
trabalho.
O dia da Festa da Entrada chegou. Era adorado por
metade da população, e a outra metade só ouvia falar bem dele. Foi com
pesar que viram Alebrian entrar pelas portas de ferro da Grã-Ordem.
No
entanto, algo o incomodou. A Grã-Ordem era rica, ornamentada em outro e
prata, com torres, pontes, guardas, serviçais... mas as vilas em volta
tinham muito pouco.
Alebrian precisava ensinar a doutrina da
Luz... não podia. Ele precisava fingir ser aquilo que era. Como negar
sua natureza? Fingir era o mesmo que mentir. Mentir era errado. Mas
precisava de poder. O Poder.
Quanto custa perder o bem que ele tinha no coração? Faltava coragem de pensar nessas coisas.
Por enquanto, pensaria nos livros.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
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