quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Adepto - parte 2

Viajar pelo mundo, e voltar à torre. Esse lema foi dito pela primeira vez por Azan-Kal. Claro que ele se referia ao fato de nascermos e morrermos. Tinha tudo a ver. Pelo menos parecia.

Mas viajar pelo mundo não parecia mais tão agradável assim. Levar a Luz para os homens era nobre, mas difícil. E o problema de aprender era saber selecionar o que deveria ser praticado e o que deveria ser só lembrado.

Suas magias eram simples demais. Sabia curar, criar alimentos ou purificar o que achasse pelo caminho, saber se havia perigos por perto... ler a mente das pessoas. E mais algumas outras coisas.

Magia negra, nem pensar.

Pensar nisso podia corromper a alma. Era perigoso. Era a magia mais poderosa, segundo diziam. Mas tudo tem seu preço.

Passando na Vila dos Pescadores, bem ao sul de Gatar, a "maior cidade do mundo". Um povo simples, com um cheiro de peixe em todos os lugares. Dava náuseas ficar mais de uns minutos na vila.

Procurou uma praça pública. Havia um mercado de produtos das plantações bem longe das barracas de peixe. Cheiro horrível. Não dava para se acostumar.

Numa das barracas, se consultou sobre a existência de magos na vila. Havia um, que vendia seus serviços à preços módicos. Chegando numa casa de madeira bem feita, levemente ornamentada com plantas, bateu à porta. Foi recebido por um serviçal.

Enquanto se apresentava, o senhor de cabelos grisalhos abriu um sorriso. Dizia ser amigo de um mago já morto, que pertenceu à Ordem também. Alebrian não se recordava do nome dado. Mas assentiu.

Alebrian procurava conhecimento mágico. Mais poder era necessário para combater as Trevas. Adquirir poder fora da Ordem era necessário. Recebeu um pergaminho, após pagar umas moedas de prata. Uma magia muito útil para ele. Poderia vasculhar os pensamentos das pessoas. Os seus inimigos seriam descobertos, e os criminosos seriam detidos.

Isso era pouco. Depois de aprender como fazer o feitiço, destruiu o pergaminho no fogo da lareira de uma taverna. Ninguém reparou. Era um Adepto da Ordem da Luz Interior. Não oferecia perigo.

O povo amava e odiava a Ordem. Uma guardiã do bem e dos bons costumes do povo. Uma mãe que vivia repreendendo os filhos. Era uma visão dualista. Diziam que os criminosos eram cobaias em experiências mágicas. Nunca houve prova disso.

Alebrian entendia cada vez mais que era necessário buscar poder. Mais poder. Para proteger o seu amado povo do Mal. Juntar-se às outras Ordens era proibido. Nenhuma delas aceitava adeptos de outras.

Ele precisava mudar de roupa.

Seu dinheiro estava acabando, principalmente depois que comprou roupas novas. Vendeu a anterior, e trocou o cajado por um punhal. Meio usado, mas inteiro. Viajou para o norte, onde ficava a Grã-Ordem das Quatro Cores. Sabiam como ninguém a controlar as forças da natureza.

Numa das pequenas vilas próximas da Grã-Ordem, perguntava como poderia entrar. Alguns riram dele, pelo aspecto franzino e humilde. Um senhor o informou que faltava uns dias para a Festa da Entrada. Nessa festa, ele poderia tentar entrar pelas portas de ferro.

Seu dinheiro estava no fim. Trabalhos físicos estavam fora de cogitação. Seu corpo não aguentaria o sol e a enxada para capinar. Seu conhecimento não era útil. Não entre pessoas tão simples.

Viu um aleijado. Lembrou-se da instrução de tratamento das doenças anatômicas. Pegou suas ferramentas de medicina, e gritava pelas praças: "curandeiro!", "curandeiro!".

Formou-se uma fila atrás dele. Metade do povo parecia reclamar de alguma coisa. Usava seu conhecimento para curar, mas era-lhe proibido cobrar. Violar seu voto era o mesmo que violar a si próprio.

Alguns, mais agradecidos que outros, deixavam presentes, pelo serviço gratuito. Pães e frutas não faltaria à noite. Até um frango cozido foi dado por uma senhora que criava galinhas e tinha uma ferida no tornozelo que não cicatrizava nunca.

Conhecer ervas era útil para trabalhar.

Lembrou-se que nunca tinha trabalhado de verdade. Quando criança, ajudava o pai com as ovelhas. Mas isso não era nada em comparação à ganhar por seu trabalho.

O dia da Festa da Entrada chegou. Era adorado por metade da população, e a outra metade só ouvia falar bem dele. Foi com pesar que viram Alebrian entrar pelas portas de ferro da Grã-Ordem.

No entanto, algo o incomodou. A Grã-Ordem era rica, ornamentada em outro e prata, com torres, pontes, guardas, serviçais... mas as vilas em volta tinham muito pouco.

Alebrian precisava ensinar a doutrina da Luz... não podia. Ele precisava fingir ser aquilo que era. Como negar sua natureza? Fingir era o mesmo que mentir. Mentir era errado. Mas precisava de poder. O Poder.

Quanto custa perder o bem que ele tinha no coração? Faltava coragem de pensar nessas coisas.

Por enquanto, pensaria nos livros.

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