quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Adepto - parte 1

Apesar de sempre imaginar esse dia, Alebrian sentia um incômodo no estômago. Receber o título de Adepto era o primeiro passo, mas parecia que estava recebendo um título maior que a própria vida.

Passou anos estudando na Ordem da Luz Interior. Era um portador do bem, da justiça, da ordem, da paz... e todas os valores que ele internalizou tanto. Tudo o que os livros diziam, ele sabia. Mas a vida estava esperando-o do lado de fora dos muros de mármore.

Tantas regras! Não usar a magia para o Mal, não usar a magia pra o egoísmo, não usar a magia para obter riquezas... não, não, não... tantas proibições! Mas eram necessárias.

Foi difícil entrar na Ordem. A origem humilde não foi o problema, mas a falta de conhecimento sim. Viver na maior cidade do mundo não era garantia de que saberia ler e escrever.

A cerimônia começou da mesma forma que há trezentos anos. As vestes brancas para a pureza do espírito, o cinto azul para a certeza da verdade e do conhecimento, as sandálias para a disposição em fazer o que é certo... cada coisa com uma representação. Isso ele já sabia.

Sabia de tudo. Tudo o que os livros diziam, ele sabia. Aprender a ler foi algo incrível. Um mundo se abriu para Alebrian.

Os cantos, a cerimônia de entrada dos Mestres da Ordem da Luz Interior... tudo ele já sabia. Cada palavra ritualisticamente dita. Ele já sabia.

O cajado foi um presente da Ordem. Conhecimento e magia precisam de uma preparação física. Um cajado como símbolo de ajuda, auxílio, sabedoria e tudo o mais. Ele já tinha visto a cerimônia algumas vezes.

Conhecer a magia branca era difícil. Adquirir conhecimento sem depender dos deuses, dos demônios ou de outros magos era recompensador.

Dias depois de estar em sua jornada, ele sentiu uma dor que não conhecia há anos. A fome. Suas rações de viagem acabaram, e sua peregrinação não tinha destino certo. Passava por um campo extenso, sem plantações. Olhou para os lados, certificando-se da solitude. Sentou-se e concentrou-se por uns segundos. À sua frente surgiu, brotando do próprio ar, uns pães, água, frutas, carne cozida. Uma refeição que o sustentaria por um dia.

Depois de descansar sob uma árvore, olhava o céu imaginando o que seriam as nuvens. Um Mestre da Ordem dizia que era vapor gelado. Bom... ele não podia discutir com alguém de conhecimento tão grande.

Mestre da Ordem... como seria bom se tornar um Mestre! Mas era preciso viver no mundo por anos... e anos... para retornar e ser aceito pelos outros Mestres. Ele já viva no mundo por onze dias. Não significava nada, nem para ele mesmo.

Um grito baixo o alertou de seu quase sono. Uma criança, talvez? Olhando para os lados, percebeu um menino correndo com toda a força. Havia medo nos olhos do garoto, que se aproximava dele ou da árvore. Ele não sabia.

Uma sombra corria atrás do garoto. Um lobo? Um javali? Ali, em pleno dia? Não. Um cão.

Não havia tempo para pensar em magias. Pegou o cajado do chão e gritou em direção ao cão. Talvez espantaria o animal.

Não adiantou nada. O cão o atacou em direção às pernas. Ele se jogou no chão, para o lado esquerdo, tentando fugir. Batia com o cajado no cão marrom escuro. Dentes brancos que mordiam o cajado ferozmente.

O medo tomou conta de Alebrian. Começou a agir por instinto. Largou o cajado e deu um giro para o lado direito. Só pensava em chutar o bicho.

Ele só queria chutar o bicho, o tempo todo.

Não conseguiu perceber que seu pé direito estava molhado de sangue, que saía da barriga estourada do animal. Ele havia matado um cão. Apesar de tudo, era uma vida.

O menino o chamava com uma voz longe, apesar de estar ao seu lado. Ele percebeu que a voz ficava mais próxima... e voltou a si. Tudo estava vermelho à sua frente... até que voltou às cores normais da grama, do céu, da árvore.

O garoto carregava um pedaço de carne, enrolado num pano. Devia ser do cão, ou o cão queria a carne. Isso não tinha importância. O cão estava morto.

Ninguém o recriminaria. Um jovem de quatorze anos salvando a própria vida e a de um menino era totalmente correto. Moralmente correto. Ninguém podia dizer que ele errou. Nem mesmo o dono do animal. Ele não podia estar errado.

Pegou o cajado. Sentiu uma fraqueza nas pernas. A agitação diminuía, a força diminuía junto. Estava disposto a caminhar, mas era melhor descansar novamente. Longe dali.

Um Adepto da Ordem da Luz Interior não mata. Esse era um dos muitos mandamentos. Trezentos e doze mandamentos. Ele sabia quase todos. Ele sempre sabia.

Suas curas mágicas não adiantariam num corpo morto. Viu o menino, se estava machucado. Nada sério, só arranhões nos pés, por correr nas pedras. Mandou-o embora de volta para a fazenda de onde viera.

Alebrian preocupou-se durante a caminhada pela tarde. A culpa por sentir prazer em matar um cão. Isso era impossível. Ele não poderia sentir prazer. Devia ser prazer por salvar o menino, com certeza. Ele jamais poderia sentir prazer na dor, na morte.

Mas a visão do sangue era prazerosa. E isso atormentava seu espírito.

Sua jornada não começou quando saiu pelas portas de cedro da Ordem. Ela começou com o vermelho do sangue, e com o sabor doce que sentia em sua boca.

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