Apesar de sempre imaginar esse dia, Alebrian sentia um incômodo no
estômago. Receber o título de Adepto era o primeiro passo, mas parecia
que estava recebendo um título maior que a própria vida.
Passou
anos estudando na Ordem da Luz Interior. Era um portador do bem, da
justiça, da ordem, da paz... e todas os valores que ele internalizou
tanto. Tudo o que os livros diziam, ele sabia. Mas a vida estava
esperando-o do lado de fora dos muros de mármore.
Tantas regras!
Não usar a magia para o Mal, não usar a magia pra o egoísmo, não usar a
magia para obter riquezas... não, não, não... tantas proibições! Mas
eram necessárias.
Foi difícil entrar na Ordem. A origem humilde
não foi o problema, mas a falta de conhecimento sim. Viver na maior
cidade do mundo não era garantia de que saberia ler e escrever.
A
cerimônia começou da mesma forma que há trezentos anos. As vestes
brancas para a pureza do espírito, o cinto azul para a certeza da
verdade e do conhecimento, as sandálias para a disposição em fazer o que
é certo... cada coisa com uma representação. Isso ele já sabia.
Sabia de tudo. Tudo o que os livros diziam, ele sabia. Aprender a ler foi algo incrível. Um mundo se abriu para Alebrian.
Os
cantos, a cerimônia de entrada dos Mestres da Ordem da Luz Interior...
tudo ele já sabia. Cada palavra ritualisticamente dita. Ele já sabia.
O
cajado foi um presente da Ordem. Conhecimento e magia precisam de uma
preparação física. Um cajado como símbolo de ajuda, auxílio, sabedoria e
tudo o mais. Ele já tinha visto a cerimônia algumas vezes.
Conhecer
a magia branca era difícil. Adquirir conhecimento sem depender dos
deuses, dos demônios ou de outros magos era recompensador.
Dias
depois de estar em sua jornada, ele sentiu uma dor que não conhecia há
anos. A fome. Suas rações de viagem acabaram, e sua peregrinação não
tinha destino certo. Passava por um campo extenso, sem plantações. Olhou
para os lados, certificando-se da solitude. Sentou-se e concentrou-se
por uns segundos. À sua frente surgiu, brotando do próprio ar, uns pães,
água, frutas, carne cozida. Uma refeição que o sustentaria por um dia.
Depois
de descansar sob uma árvore, olhava o céu imaginando o que seriam as
nuvens. Um Mestre da Ordem dizia que era vapor gelado. Bom... ele não
podia discutir com alguém de conhecimento tão grande.
Mestre da
Ordem... como seria bom se tornar um Mestre! Mas era preciso viver no
mundo por anos... e anos... para retornar e ser aceito pelos outros
Mestres. Ele já viva no mundo por onze dias. Não significava nada, nem
para ele mesmo.
Um grito baixo o alertou de seu quase sono. Uma
criança, talvez? Olhando para os lados, percebeu um menino correndo com
toda a força. Havia medo nos olhos do garoto, que se aproximava dele ou
da árvore. Ele não sabia.
Uma sombra corria atrás do garoto. Um lobo? Um javali? Ali, em pleno dia? Não. Um cão.
Não havia tempo para pensar em magias. Pegou o cajado do chão e gritou em direção ao cão. Talvez espantaria o animal.
Não
adiantou nada. O cão o atacou em direção às pernas. Ele se jogou no
chão, para o lado esquerdo, tentando fugir. Batia com o cajado no cão
marrom escuro. Dentes brancos que mordiam o cajado ferozmente.
O
medo tomou conta de Alebrian. Começou a agir por instinto. Largou o
cajado e deu um giro para o lado direito. Só pensava em chutar o bicho.
Ele só queria chutar o bicho, o tempo todo.
Não
conseguiu perceber que seu pé direito estava molhado de sangue, que
saía da barriga estourada do animal. Ele havia matado um cão. Apesar de
tudo, era uma vida.
O menino o chamava com uma voz longe, apesar
de estar ao seu lado. Ele percebeu que a voz ficava mais próxima... e
voltou a si. Tudo estava vermelho à sua frente... até que voltou às
cores normais da grama, do céu, da árvore.
O garoto carregava um
pedaço de carne, enrolado num pano. Devia ser do cão, ou o cão queria a
carne. Isso não tinha importância. O cão estava morto.
Ninguém o
recriminaria. Um jovem de quatorze anos salvando a própria vida e a de
um menino era totalmente correto. Moralmente correto. Ninguém podia
dizer que ele errou. Nem mesmo o dono do animal. Ele não podia estar
errado.
Pegou o cajado. Sentiu uma fraqueza nas pernas. A
agitação diminuía, a força diminuía junto. Estava disposto a caminhar,
mas era melhor descansar novamente. Longe dali.
Um Adepto da
Ordem da Luz Interior não mata. Esse era um dos muitos mandamentos.
Trezentos e doze mandamentos. Ele sabia quase todos. Ele sempre sabia.
Suas
curas mágicas não adiantariam num corpo morto. Viu o menino, se estava
machucado. Nada sério, só arranhões nos pés, por correr nas pedras.
Mandou-o embora de volta para a fazenda de onde viera.
Alebrian
preocupou-se durante a caminhada pela tarde. A culpa por sentir prazer
em matar um cão. Isso era impossível. Ele não poderia sentir prazer.
Devia ser prazer por salvar o menino, com certeza. Ele jamais poderia
sentir prazer na dor, na morte.
Mas a visão do sangue era prazerosa. E isso atormentava seu espírito.
Sua
jornada não começou quando saiu pelas portas de cedro da Ordem. Ela
começou com o vermelho do sangue, e com o sabor doce que sentia em sua
boca.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
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