quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Adepto - parte 8

Alebrian poderia morar na estalagem, e fazer seus serviços de curandeiro num local fixo. Parecia uma boa opção. Afinal, diminuiria seus gastos e não precisaria pagar o aluguel de uma residência. Alânya estava acostumada a morar ali.

Ficar ali atrapalharia tudo. Não conseguiria aprender o Poder, pois seu acesso à magia ali seria mínimo. Continuaria viajando, deixando um bom dinheiro com a futura esposa e com o tio dela. Assim, calaria a boca do velho.

Fez a festa do casamento, recebeu as bênçãos de Binah (deusa-mãe) e Chochmah (deus-pai), dois poderosos deuses do Panteão dos povos livres. Os dez deuses adorados pelo povo tinham variados aspectos.

Meses depois, tinha juntado bastante ouro. O suficiente para viajar uns meses e deixar Alânya bem alicerçada financeiramente. Tinha salvo a vida do filho mais novo de um banqueiro de uma vila vizinha, então estava rendendo juros de empréstimo a seu favor, com o depósito do ouro. O que aquietou seu espírito foi ver que a mulher não estava grávida e que o banqueiro ia fornecer o dinheiro para ela sem problemas.

Malas de viagem prontas e cavalo comprado. Sua última noite de amor com sua esposa, que horas depois chorava por sua partida... E muitos do povo choravam juntos, por ficarem sem o curandeiro tão habilidoso que vivia ali.

Depois de quatro dias de viagem, encontrou três mulheres vestidas de preto, andando em direção a um pântano fétido. Provavelmente magas, ou sacerdotizas. Chamou-as e se apresentou como curandeiro e mago. Os rostos delas estavam envoltos em véus, e os olhos delas demonstravam uma idade madura. Conversaram, e perceberam, ambas as partes, que tinham o que oferecer um ao outro.

Ia se iniciar um comércio mágico.

De início, discutiram o que queriam cada uma das partes. Elas eram bruxas, especialistas em magias que controlavam o corpo dos humanos e de animais. Ele poderia oferecer algo difícil para elas, que era a magia dos elementos. Mais de três horas de conversas e negociações, até que chegaram num acordo: Alebrain daria a elas a oportunidade de copiar o grimório dele, enquanto ele poderia copiar o grimório delas.

Escureceu, e foram para a cabana delas. Alebrian começou a copiar o grimório delas, enquanto elas copiavam o dele. Madrugada à dentro, percebeu que elas tinham ido dormir. Em momento algum ele viu o rosto delas. Como ele estava acabado de sono, juntou suas coisas num canto, deixou o cavalo preso no lado de fora da cabana e foi dormir lá dentro.

Pensou em sua Alânya. Seus cabelos encaracolados ruivos, que ele passava os dedos... seu corpo nu, tão lindo... o calor que sentia com ela, emaranhado em seus braços e pernas... sentia o prazer inenarrável em seu membro masculino.

Unhas passavam em seu peito quase sem pêlos. Mas ela não tinha unhas grandes. Foi acordando aos poucos, e percebeu que uma das bruxas estava sobre ele, tendo sexo com ele. Não sabia o que fazer. Olhava para ela, e como estava vestida e com véu, imaginou sua Alânya no lugar. Teve um clímax em poucos minutos.

Fingindo que nada aconteceu, terminou a cópia, guardou seu grimório e saiu se despedindo rapidamente. Tinha angariado mais Poder, mas não sabia se sofreria alguma maldição pelo momento íntimo que teve com a bruxa. Seu coração apertava tanto que parecia que estava encolhendo. Pensava em sua esposa, e a traição à ela que ele tinha cometido. Era um adúltero.

Começou a pensar... o trajeto sobre um campo verde, sem nada para fazer ou ver, deu um tempo à ele para pensar. Ele imaginou estar com a esposa... sonhou com ela, e fingiu que estava com ela enquanto a bruxa tinha relação com ele. Ele não deixou de pensar na esposa. Ele não tinha traído ela. Foi um escape ao seu desejo natural, pensando em Alânya.

Alebrain chegou à conclusão que não estava errado. Ele nunca deixou de pensar na sua mulher, mesmo com a bruxa. Ele não a traiu, nem causou mal a ninguém. Cada vez mais, ele encontrava justificativas para seus atos. Afinal, como membro da Luz, ele não poderia ser julgado por ninguém. No futuro, com os resultados de sua procura, com o Poder, tudo estaria justificado.

Ele seria julgado pelo futuro, e não pelo presente.

O Adepto - parte 7

Um mês de estudo é o suficiente para se aprender os rudimentos de um assunto. Trabalhava como curandeiro em cada vila que passava, hospedava-se e comia o que tinha de melhor (o que, normalmente, não era grande coisa) e se infurnava no grimório.

Esse grimório não o serviria por muito tempo. Precisava arrumar outro, para quando terminasse de lê-lo. Enquanto aprendia novos feitiços, foi atendido na estalagem por uma moça.

Cabelos ruivos, olhos verdes, pele levemente sardenta. Corpo de uma jovem de quinze anos. Já devia estar casada há uns dois ou até três anos. Seu corpo indicava que seu primeiro sangramento de mulher foi aos onze ou doze anos. Seus estudos de anatomia estavam avançados. Eram necessários para aprender magias de cura. E outras magias mais incomuns.

Seu coração batia mais forte, quando a atendeu. Ela falava com uma certa gagueira, uma hesitação. Seu sotaque era do sul. Devia estar ali há pouco tempo. No sul as pessoas se casam mais tarde. Ela devia ser solteira. Enquanto ela falava o que tinha para o almoço do dia, ele sentiu um calor no pescoço. Olhou para a janela. Não tinha ninguém. Poderia ser alguém querendo pegá-lo com um feitiço...

Seu membro masculino estava se avolumando. Normal para um homem. Afinal, todos os homens nasceram para desposar mulheres. Ele notava seu decote o tempo todo. Não era um grande decote, mas parecia ser o suficiente naquele momento.

Ele a interrompeu dizendo-lhe como ela era bonita. Ela só avermelhou a face, e passou a mão no pescoço. Ela tentou continuar, mas ele a olhou nos olhos como ela nunca tinha sido olhada. E começou a realizar um feitiço para atingir suas emoções. Ela ficou paralisada, com um rosto de indiferença.

Alebrian colocou-a na cama, e fez aquilo que ele só tinha visto uma vez, quando espiou um mestre da sua Ordem com uma mestre novata. A sensação mais forte que já tinha sentido até aquele dia. O feitiço tinha acabado, mas ela continuou ali por vontade própria.

Passaram cerca de quinze minutos. Escorria um filete de sangue na coxa da moça ruiva. Ou melhor, da mulher ruiva.

Ela se vestia rápido, como quem percebe que deixou afazeres importantes. Ninguém podia suspeitar de nada. Ela desceu sem falar nada com ele. Alebrian sentia paixão. Amor. Não sabia. Não estava muito cansado, mas sentia uma dor leve no ventre. Parecia que tinha usado músculos que jamais usava.

Sorria sozinho. Estava apaixonado. Pensou estar amando.

Mas ele não podia violar a lei do casamento!

Arrumou tudo, e foi decidido para baixo. O correto a se fazer é casar-se. Ele deveria pedir a mão dela em casamento. Desceu, e notou um silêncio na cozinha, atrás do balcão. Uns berros que ele não entendeu, mas pela sombra na cortina, viu o estalajadeiro colocando o dedo no rosto da menina ruiva. Ele nem sabia o nome dela. Mas a conheceu de uma forma que só ele conheceria.

O estalajadeiro veio com uma faca. Olhou ferozmente para as pessoas. Quando notou Alebrian no recinto, gritava "desgraçado!" e partiu para cima de Alebrian com a faca. Ambos caíram no chão, quebrando uma mesa no caminho. Alebrian não conseguia deter a força do braço do estalajadeiro, e gritava, enquanto tentava se desviar, que ia reparar tudo. Berrava que a amava, e que se casaria com ela.

O estalajadeiro levantou-se, babando de fúria. Tentou controlar a respiração. A mulher olhava-o com pena, escorada no umbral da porta da cozinha. Uma lágrima descia do seu olho direito. Seu lindo olho verde. Alebrian, olhando para ela, levantou-se ainda com medo, enquanto percebia que não havia mais ninguém dentro da estalagem.

O estalajadeiro entrou na cozinha quase arrancando a cortina que a separava do balcão, e jogou a faca no chão, com toda a força. Pela lei do reino de Yonjar, um pedido de casamento anula o crime de conjunção carnal com mulher virgem. E um pedido só pode ser rejeitado se quem o pede for um criminoso conhecido, ou se a moça não quiser casar-se. Alebrian era bem visto ali e nas vilas próximas, por ser um curandeiro que cobrava tão barato. E era o homem da vida da moça ruiva. Por causa dele, ela era uma mulher agora. Ele virou um homem.

Não tinha onde morar. Estava fazendo uma viagem para adquirir poder. Estava apaixonado. Precisava salvar as pessoas. Estava apaixonado. Isso atrapalharia seus planos. Estava apaixonado.

Levaria a mulher ruiva com ele na viagem, depois do casamento. Depois de umas horas, enquanto conversava com o estalajadeiro, descobriu que o nome da sobrinha sulista dele era Alânya. Sua mulher tinha um nome lindo. Estava pronto para se tornar um homem. Mas lembrou-se do grimório roubado que estava lá em cima. Voltou a estudar, pois precisava adquirir poder.

O Adepto - parte 6

Quando queremos aprender muito sobre alguma coisa, a informação entra rápida e se prende como cola em nossas mentes. Assim era aprender Magia Negra.

Para a maioria das Ordens de magia do mundo, a Magia Negra era aquela que envolvia morte, como criar mortos-vivos, retirar a vida das pessoas, colocar doenças nelas, invocar a presença de demônios. Para a Ordem da Luz Interior, qualquer magia voltada para o Mal, para a morte, para a destruição, pura e simples, podia ser encarada como Magia Negra.

Enquanto lia, Alebrian tentava esquecer esses mandamentos que atrapalhavam o aprendizado. Ficou horas lendo, e só percebeu a fome quando o estômago doía. Estava cheio dos alimentos mágicos. Pareciam que tinham sempre o mesmo gosto. Tudo comum. Normal demais. Desceu e fez uma refeição com as últimas moedas que tinha. O melhor vinho (que era pior que a maioria dos vinhos), pão com carne, ensopado de legumes, e uma maçã. Acabou o dinheiro, mas estava satisfeito pela refeição com gosto de comida de verdade.

Precisava de mais dinheiro. Voltou a gritar pela vila, dizendo que era curandeiro. Continuou cobrando o mesmo valor de uma moeda de cobre por pessoa.

Em dois dias, juntou o necessário para voltar para a estrada. Comprou um jumento doente por um preço bem barato, e curou-o. Na viagem, percebeu que precisava fazer experiências de alquimia, para saber se estava aprendendo direito. Coletava plantas e guardava tudo. Lia enquanto viajava, ignorando seu redor.

Ouviu um zumbido e uma dor horrível na coxa. Era uma flecha. Caiu do jumento e olhava em volta. Viu um homem, magro e baixo, com uma armadura de couro, já surrada pelo uso. Olhos furtivos castanhos, pele clara, e uma boca fechada e sisuda. Aproximava-se lentamente, pé após pé, de lado, com outra flecha já pronta, apontada para a cabeça de Alebrian.

Ele perguntava, cheio de dor, o que era isso. Porque isso estava acontecendo. O estranho disse que Alebrian era um ladrão de magos, que foi contratado para pegar o grimório de volta. Alebrian tentou ficar de pé, mas a dor era enorme. Latejava a dor até a coluna, e a perna toda ficava fraca por causa da dor no músculo da coxa.

Era preciso arriscar. Podia arrancar a flecha, e curar-se. Mas o mercenário na sua frente pegaria o grimório e fugiria. Não pensou duas vezes. Usaria seu conhecimento adquirido na Grã-Ordem das Quatro Cores. Era necessário. Olhou para o mercenário enquanto falava as palavras do idioma dos Precursores, os primeiros a usarem magia, há séculos atrás. Um leve mexer de dedos, e o mercenário olhava assustado para baixo.

O mercenário transformou-se em uma estátua de pedra, com o rosto torcido pela dor.

Alebrian reuniu coragem. Puxou a flexa de uma vez só, quase sem força, por causa da magia feita. Parecia que a dor não poderia aumentar, mas aumentou! Latejava mais ainda, até a ponta do pé. A coluna refletia a dor, como se fosse um choque elétrico.

Tentou se concentrar, apertando a grama do chão por causa da dor que sentia. Concentrou-se e começou a fechar a ferida. Não foi completa. Precisava realizar o feitiço mais uma vez, mas estava cansado demais para isso.

Ficou ali, deitado, se recobrando. O sol queimava a pele, deixando-o suado e pegajoso. Mais uma vez fez o feitiço, e curou-se. Levantou, montou no jumento, ajeitou tudo e continuou o caminho. Se revertesse a magia feita, com certeza o mercenário o mataria. Tinha que deixá-lo ali mesmo.

Continuou seu caminho.

Depois de cinco minutos, Alebrian voltou à estátua. Pegou os pertences, as armas, a armadura, e levou para si. Alguém roubaria. Ele se apropriou legalmente, pois a maioria das leis do reino de Yonjar permitiam que a vítima fosse indenizada pelos bens do agressor. Mesmo sem um juíz para dizer se era justo ou não, ele executou a lei.

O que um juiz sabe de justiça? Para Alebrian, a justiça está acima dos homens. Ele podia invocar a justiça na hora que quisesse. Afinal, ele era um Adepto da Ordem da Luz Interior. Só os mais bondosos podem pertencer à ela. Ele era justo e bom. Sempre.

O Adepto - parte 5

Quando estamos com uma idéia fixa, só há duas maneiras de tirá-la da cabeça: trabalhar na idéia ou trabalhar no oposto da idéia.

Durante sua pena (que afinal, não era tão pesada de acordo com Alebrian), ele pode pensar em como adquirir poder de uma forma mais fácil. Lembrou que existiam elixires alquímicos que davam poderes. Lembrou que existiam magias que criavam itens mágicos que poderiam funcionar indefinidamente. Lembrou que era possível até "colocar" feitiços na própria pessoa, permanentemente.

Tudo era difícil, trabalhoso, demorado. Ele tinha que adquirir poder rapidamente, para poder sair da Grã-Ordem das Quatro Cores. Enquanto estudava magias elementais (aprendia uma ou duas por mês), seus estudos de taumatologia mostravam que existiam feitiços capazes de aumentar o poder do mago, sugar a energia dos outros magos, diminuir a capacidade de usar magia e até anular essa capacidade.

Praticamente todas essas magias eram Magia Negra. Ele era proibido.

Proibido pela Ordem da Luz Interior, proibido pela Grã-Ordem das Quatro Cores, proibido pela moral, proibido pela sua consciência.

Ele não podia trair tudo e todos.

Mas estar ali parecia errado. Ele merecia a pena correta. Se ele recebia uma pena diferente, então ele estava ali, cumprindo pena, pelo motivo errado. Não era certo ele estar ali, com esse raciocínio.

Um mês só pensando nesta hipótese.

Ele ia embora de vez. Aprendeu algumas mágicas, nos meses que ficou. Os rudimentos das magias elementais estavam na sua mente. Sua jornada seria mais fácil a partir de agora. Pegou um grimório para si. Era de um dos muitos mestres de magia elemental dali. Não era crime. Ele iria ajudar pessoas. Precisava de poder para ajudar pessoas. Precisava de conhecimento mágico para adquirir poder. O grimório não faria falta para o mestre de magia dele. Afinal, ele precisava do poder para ajudar várias pessoas. O valor de várias pessoas era superior ao valor de um só, o seu mestre. E Alebrian, em sua mente, dizia para si mesmo que ele era o símbolo das pessoas. Só ele faria o melhor.

Anoiteceu. Pegou a tornozeleira de Ferro-Frio que ficava presa nele (e o impedia de fazer magias) e bateu com uma barra de aço até que se amolecesse. o Ferro-Frio, por não ter sido temperado no fogo de uma forja, era mais quebradiço. Arranhou a perna, mas fez uma pequena magia de cura para resolver. As ovelhas, as galinhas e os bois eram suas únicas testemunhas.

Usou um feitiço que tinha aprendido no mês anterior, para que pudesse andar no ar. Abrir um buraco na rocha não era totalmente impossível, mas ele ainda não tinha aprendido essa magia. Nem seria seguro. Se houvesse guardas do lado de fora dos muros, poderiam pegá-lo.

Subia em degraus invisíveis, feitos do próprio ar. Olhava em volta para saber se alguém o tinha percebido. Ficou imóvel quando um guarda se voltou para a direção dele. Prendeu a respiração até o quanto aguentou. Sentiu a cabeça zonza... precisava respirar.

O guarda continuou seu caminho. Alebrian recobrou a respiração e continuou. Seu feitiço acabaria o efeito.

Enfim, estava do lado de fora. Por pouco não caiu no chão. O efeito da mágica terminou quase exatamente ao colocar o pé esquerdo no chão. Então lembrou-se que tinha deixado suas coisas lá dentro. Só o grimório que ele tinha se apropriado estava com ele, preso por dentro da roupa.

Ele nunca foi bom planejando. Ele lembrava de umas coisas, e esquecia de outras.

Deixou para lá. Podia fazer alimentos a partir do nada. Podia curar a si mesmo e aos outros. Não tinha dinheiro, mas poderia trabalhar para arrumar algumas moedas rapidamente. Ele podia ser um curandeiro em qualquer vila. Os doentes sempre existem. Os pobres sempre existem.

Estava morrendo de sono. Já caminhava há uma hora pelo campo, e ouvia ruídos estanhos. Com certeza animais pequenos e inofensivos. Alebrian pensava nisso, pois era mais tranquilizador.

Ficou numa gruta vazia. Dormiu no chão. Teve uma noite sem sonhos.

De manhã, faz uma mágica para criar alimento. Em direção a uma vila próxima, apresentou novamente seus préstimos como curandeiro. Cobrava apenas uma moeda de cobre pelo serviço. Procurou uma estalagem e alugou o quarto mais confortável, graças ao dinheiro que conseguiu com os socorros que prestou. À noite, pegou o grimório e começou a estudar. Precisava aprender a sugar a energia vital dos inimigos. Só faria isso naqueles que ele sabia serem maus. Ele ia adquirir poder para si. Ele tinha que ter mais poder. Precisava de mais.

O Adepto - parte 4

Adentrar um salão sabendo que será condenado dá uma sensação de impotência. Nada do que você fizer ou disser vai adiantar. Todos te declararão culpado, por tudo. Era só isso que Alebrian pensava.

Cinco mestres estavam à sua frente, numa mesa de madeira trabalhada por algum artista. Pés de bronze retorcido. Todos os cinco em tronos de platina, ouro e prata. Alebrian ficava em pé, em frente à eles, usando uma corrente de Ferro-Frio. O único material imune à magia que se tinha notícia. Nem fazer mágicas era possível, quando o Ferro-Frio tocava a sua pele.

Em silêncio por um minuto, que pareciam horas, o Grão-Mestre falava com ele que os guardas haviam contado à ele sobre a tentativa de realizar magias sem permissão.

Alebrian gelou de novo. Não acreditava no que ouvia.

Ele perguntava da morte de Turima. O Mestre da Água pediu a palavra e contou à Alebrian que ela teve o triste azar de cair numa estaca. Mas que isso não era da conta direta dele. Ele estava ali para ser julgado pelo delito de realizar magia sem permissão.

As pernas dele voltaram à ter força. Conseguia sentir novamente o chão duro e frio da sala. Parecia que antes estava dormente.

Alebrian não conseguia raciocinar direito. Imaginava que devia ser um teste. A corrente não permitiria fazer magias para mentir, mas os Mestres não poderiam ler a mente dele, pelo menos.

Pensar em si mesmo como assassino não era bom naquele momento.

Respirou fundo, como quem pode finalmente voltar à respiração depois de um mergulho profundo. Prestava atenção na acusação. Mas não acreditava no que ouvia. Ele realizou algumas magias no corpo morto de Turima. E magias sobre corpos mortos são necromancia. Magia Negra.

O Grão-Mestre, presidindo a sessão, deu-lhe permissão de falar. Ele alegava que estava tentando realizar magias de cura nela. O Mestre do Ar disse que qualquer pessoa sabe que magias de cura não funcionam em mortos. Alebrian diz que não tinha percebido que ela estava morta.

O Mestre da Terra deu um soco na mesa, apontou rapidamente para Alebrian, gritando com ele que era um absurdo, era um ultraje, ele dizer que não tinha percebido que o corpo atravessado por uma estaca não estava morto. Alebrian tentou ficar calmo. Disse que já tinha visto pessoas com lanças atravessadas no corpo, e que ainda falavam e gemiam.

O Mestre do Fogo limitou-se à perguntar onde ele tinha visto isso. Ele era jovem demais para a guerra.

Alebrian sabia que não poderia mentir. Quem mente, trai a si mesmo. Trai o Bem, trai a Luz. Ele disse que trabalhava curando as pessoas. Tinha aprendido isso com tratadores de doenças e ferimentos. Como ele vivia em Gatar, conhecia muitas pessoas que viviam do comércio e de outros serviços.

Mandaram Alebrian esperar numa das celas. Eles discutiriam sobre o assunto.

Duas horas depois, Alebrian saiu de sua cela. Não era como nas cidades por onde já tinha passado. A cela era limpa, com uma cama de feno. Nas cidades, diziam que as celas eram cheias de ratos e insetos, com corpos mortos misturados aos vivos. Essa cena lhe rendia um pavor que quase aparecia nos olhos.

Novamente com uma corrente de Ferro-Frio, um dos guardas o coloca em frente aos Mestres da Grã-Ordem.

Recebeu a sentença com papitações. Seu coração pulava até a garganta. Parecia que podia sentir.

Ele era inocente de realizar Magia Negra.

Mas tinha realizado magia sem permissão. Era culpado em uma infração grave. Sua pena era o trabalho forçado no campo de animais, todas as noites, por um ano.

Dias depois, pensava consigo mesmo, enquanto levava as ovelhas para comer ração, que trabalhar com os animais não era ruim. Ele já tinha feito isso. Mas ele começava quando anoitecia. Os animais são difíceis de tratar nessas horas.

Mesmo tendo feito magias de cura para tentar salvar Turima, ele violou uma regra. As regras serviam para trazer ordem ao caos. Assim era ali dentro, daquelas paredes de rocha e ferro.

As regras valem mais do que salvar a vida de Turima.

Naquele ano, ele entendeu que a Grã-Ordem só penalizava quem era pego num delito. Os que realizavam magia sem permissão eram muitos. Mas não eram pegos no momento do delito.

Ali ele não deveria ser obediente. Ele deveria ser esperto. E tinha um ano para planejar como fazer isso.

Lembrou-se naquela noite da sentença, parte por parte. Ele não era um assassino. Não para eles.

Mas a Luz cobraria seu preço em breve.

O Adepto - parte 3

Seu primeiro dia na Grã-Ordem das Quatro Cores foi atípico. Um dos Mestres analisou-o magicamente, para determinar se ele teria capacidade de realizar magias. Menos de um por cento da população tem essa capacidade.

Só isso. Mais nada. Sem perguntas.

Enquanto mandava-o embora, apenas o advertiu que o verdadeiro teste é o dia-a-dia dentro dos muros.

Tudo lá tinha quatro cores: branco para o ar, vermelho para o fogo, verde para a terra e azul para a água. Decorações, roupas, flâmulas... tudo.

Os mestres usavam sempre algo para distingui-los dos demais. Um cordão com um pedra preciosa. Os mestres do ar usavam um diamante, os mestres do fogo usavam um rubi, os mestres da terra usavam uma esmeralda e os mestres da água usavam uma safira.

No dia-a-dia, como tinha dito aquele Mestre que avaliou Alebrian, havia muito sofrimento. Acordar cedo, dormir tarde, pressa para comer e vestir, aulas e mais aulas, testes, horas enfurnado em laboratórios fumacentos com os professores de alquimia. Seu nariz ardia, seus olhos ardiam. Dor de cabeça constante.

E só tinha passado uma semana.

Precisava fazer algo que sempre achou "sujo": criar uma política com alguém mais poderoso. Se ele fizesse alguém ser humilhado, com certeza alguns alunos se aproximariam dele. Os maus gostam dos maus.

Os alunos mais antigos não conversavam muito com os novatos. Sendo ele um noviço, não tinha nada a oferecer à eles. Quem sabe um pouco de trabalho semi-escravo, em troca de conhecimento.

As pessoas são más por natureza. Desde bebê, o homem é egoísta, mau, cruel. A Ordem da Luz Interior serve para mostrar que o caminho do bem é seguido por decisão própria, que vai contra a real natureza humana. Os deuses criaram as pessoas, mas são as pessoas que criam seus próprios deuses, com seus desejos carnais e efêmeros.

Ali havia muito Mal. Pelo menos em comparação à sua Ordem, ali era terrível. Penalidades comuns eram o castigo físico com chicotes (em público), transformação em pedra e o pior: perder a capacidade de realizar magias. Para sempre.

Obediência total era exigida. No entanto, com o decorrer do tempo, os obedientes sofriam mais. Tinham assoberbação de trabalho e os mestres chamavam os alunos para cumprir tarefas serviçais. Tudo por um pouco de conhecimento à mais.

Alebrian percebeu, com o decorrer de dois meses, que o importante não era só o conhecimento. Era usar esse poder para atingir seus objetivos de qualquer maneira.

Ele pensou em criar uma aura de mistério em torno de si. Usando magia, leu a mente de alguns alunos, até descobrir quem menos gostava dele. Turima, uma aluna quatro anos mais velha que ele (e 3 anos mais antiga na Grã-Ordem que ele) simplesmente não o suportava. Sem motivos.

Fingiu tropeçar em Turima, rasgando um pedaço da túnica dela. Ela virou rapidamente, vendo o que acontecia com sua roupa. Olhou com uma raiva para ele, caído no chão, de quatro, como um cachorro.

Ela se apossou de um estado de fúria, e começou a gritar com ele. Xingava-o com todos os nomes que ele conhecia e não conhecia. Ele não tinha muita imaginação quanto à isso. Apenas gritou "Sua idiota, pare de latir como um... coiote!" e fugiu pelos corredores largos da torre lateral.

Turima fez um gesto rápido com a mão, abriu um buraco na parede, que se fechou instantes depois dela ter passado. Ela encontrou-o parado na parte de baixo da traseira da torre, onde se criavam bois. Ela saltou sobre ele.

Mas não era ele. Era um espantalho com as roupas dele. Com uma estaca por dentro.

Um remorsso bateu horrivelmente sobre ele. Ele era culpado, mesmo sem saber da estaca. Ele colocou Turima em risco. Ele matou Turima. Tirar uma vida. Assassinar.

Começaram a juntar pessoas em volta, e ninguém acreditava no que via. O sangue escorria sem parar. Uma das marcas de sangue parecia um rubi sobre a túnica. Mas a mancha se espalhou rapidamente.

Agora ele só pensava em ajudá-la. Jamais previu que isso aconteceria. Ele mesmo não tinha visto a estaca. Só vestiu o espantalho por cima, com roupas como a dele.

Virou a estaca, fazendo o corpo cair junto. Puxou a estaca e tentou curá-la com magia. Poucos ali sabiam mágicas de cura. Ficou tão exausto que desmaiou.

Acordou no quarto dos feridos. Pareciam dias, mas foi apenas uma hora. Um guarda chegou e apenas avisou que ele deveria ir à sala dos Mestres.

Gelou o sangue. Engoliu em seco e quase desmaiou. Haveria um julgamento.

Afinal, ele era um assassino.

O Adepto - parte 2

Viajar pelo mundo, e voltar à torre. Esse lema foi dito pela primeira vez por Azan-Kal. Claro que ele se referia ao fato de nascermos e morrermos. Tinha tudo a ver. Pelo menos parecia.

Mas viajar pelo mundo não parecia mais tão agradável assim. Levar a Luz para os homens era nobre, mas difícil. E o problema de aprender era saber selecionar o que deveria ser praticado e o que deveria ser só lembrado.

Suas magias eram simples demais. Sabia curar, criar alimentos ou purificar o que achasse pelo caminho, saber se havia perigos por perto... ler a mente das pessoas. E mais algumas outras coisas.

Magia negra, nem pensar.

Pensar nisso podia corromper a alma. Era perigoso. Era a magia mais poderosa, segundo diziam. Mas tudo tem seu preço.

Passando na Vila dos Pescadores, bem ao sul de Gatar, a "maior cidade do mundo". Um povo simples, com um cheiro de peixe em todos os lugares. Dava náuseas ficar mais de uns minutos na vila.

Procurou uma praça pública. Havia um mercado de produtos das plantações bem longe das barracas de peixe. Cheiro horrível. Não dava para se acostumar.

Numa das barracas, se consultou sobre a existência de magos na vila. Havia um, que vendia seus serviços à preços módicos. Chegando numa casa de madeira bem feita, levemente ornamentada com plantas, bateu à porta. Foi recebido por um serviçal.

Enquanto se apresentava, o senhor de cabelos grisalhos abriu um sorriso. Dizia ser amigo de um mago já morto, que pertenceu à Ordem também. Alebrian não se recordava do nome dado. Mas assentiu.

Alebrian procurava conhecimento mágico. Mais poder era necessário para combater as Trevas. Adquirir poder fora da Ordem era necessário. Recebeu um pergaminho, após pagar umas moedas de prata. Uma magia muito útil para ele. Poderia vasculhar os pensamentos das pessoas. Os seus inimigos seriam descobertos, e os criminosos seriam detidos.

Isso era pouco. Depois de aprender como fazer o feitiço, destruiu o pergaminho no fogo da lareira de uma taverna. Ninguém reparou. Era um Adepto da Ordem da Luz Interior. Não oferecia perigo.

O povo amava e odiava a Ordem. Uma guardiã do bem e dos bons costumes do povo. Uma mãe que vivia repreendendo os filhos. Era uma visão dualista. Diziam que os criminosos eram cobaias em experiências mágicas. Nunca houve prova disso.

Alebrian entendia cada vez mais que era necessário buscar poder. Mais poder. Para proteger o seu amado povo do Mal. Juntar-se às outras Ordens era proibido. Nenhuma delas aceitava adeptos de outras.

Ele precisava mudar de roupa.

Seu dinheiro estava acabando, principalmente depois que comprou roupas novas. Vendeu a anterior, e trocou o cajado por um punhal. Meio usado, mas inteiro. Viajou para o norte, onde ficava a Grã-Ordem das Quatro Cores. Sabiam como ninguém a controlar as forças da natureza.

Numa das pequenas vilas próximas da Grã-Ordem, perguntava como poderia entrar. Alguns riram dele, pelo aspecto franzino e humilde. Um senhor o informou que faltava uns dias para a Festa da Entrada. Nessa festa, ele poderia tentar entrar pelas portas de ferro.

Seu dinheiro estava no fim. Trabalhos físicos estavam fora de cogitação. Seu corpo não aguentaria o sol e a enxada para capinar. Seu conhecimento não era útil. Não entre pessoas tão simples.

Viu um aleijado. Lembrou-se da instrução de tratamento das doenças anatômicas. Pegou suas ferramentas de medicina, e gritava pelas praças: "curandeiro!", "curandeiro!".

Formou-se uma fila atrás dele. Metade do povo parecia reclamar de alguma coisa. Usava seu conhecimento para curar, mas era-lhe proibido cobrar. Violar seu voto era o mesmo que violar a si próprio.

Alguns, mais agradecidos que outros, deixavam presentes, pelo serviço gratuito. Pães e frutas não faltaria à noite. Até um frango cozido foi dado por uma senhora que criava galinhas e tinha uma ferida no tornozelo que não cicatrizava nunca.

Conhecer ervas era útil para trabalhar.

Lembrou-se que nunca tinha trabalhado de verdade. Quando criança, ajudava o pai com as ovelhas. Mas isso não era nada em comparação à ganhar por seu trabalho.

O dia da Festa da Entrada chegou. Era adorado por metade da população, e a outra metade só ouvia falar bem dele. Foi com pesar que viram Alebrian entrar pelas portas de ferro da Grã-Ordem.

No entanto, algo o incomodou. A Grã-Ordem era rica, ornamentada em outro e prata, com torres, pontes, guardas, serviçais... mas as vilas em volta tinham muito pouco.

Alebrian precisava ensinar a doutrina da Luz... não podia. Ele precisava fingir ser aquilo que era. Como negar sua natureza? Fingir era o mesmo que mentir. Mentir era errado. Mas precisava de poder. O Poder.

Quanto custa perder o bem que ele tinha no coração? Faltava coragem de pensar nessas coisas.

Por enquanto, pensaria nos livros.

O Adepto - parte 1

Apesar de sempre imaginar esse dia, Alebrian sentia um incômodo no estômago. Receber o título de Adepto era o primeiro passo, mas parecia que estava recebendo um título maior que a própria vida.

Passou anos estudando na Ordem da Luz Interior. Era um portador do bem, da justiça, da ordem, da paz... e todas os valores que ele internalizou tanto. Tudo o que os livros diziam, ele sabia. Mas a vida estava esperando-o do lado de fora dos muros de mármore.

Tantas regras! Não usar a magia para o Mal, não usar a magia pra o egoísmo, não usar a magia para obter riquezas... não, não, não... tantas proibições! Mas eram necessárias.

Foi difícil entrar na Ordem. A origem humilde não foi o problema, mas a falta de conhecimento sim. Viver na maior cidade do mundo não era garantia de que saberia ler e escrever.

A cerimônia começou da mesma forma que há trezentos anos. As vestes brancas para a pureza do espírito, o cinto azul para a certeza da verdade e do conhecimento, as sandálias para a disposição em fazer o que é certo... cada coisa com uma representação. Isso ele já sabia.

Sabia de tudo. Tudo o que os livros diziam, ele sabia. Aprender a ler foi algo incrível. Um mundo se abriu para Alebrian.

Os cantos, a cerimônia de entrada dos Mestres da Ordem da Luz Interior... tudo ele já sabia. Cada palavra ritualisticamente dita. Ele já sabia.

O cajado foi um presente da Ordem. Conhecimento e magia precisam de uma preparação física. Um cajado como símbolo de ajuda, auxílio, sabedoria e tudo o mais. Ele já tinha visto a cerimônia algumas vezes.

Conhecer a magia branca era difícil. Adquirir conhecimento sem depender dos deuses, dos demônios ou de outros magos era recompensador.

Dias depois de estar em sua jornada, ele sentiu uma dor que não conhecia há anos. A fome. Suas rações de viagem acabaram, e sua peregrinação não tinha destino certo. Passava por um campo extenso, sem plantações. Olhou para os lados, certificando-se da solitude. Sentou-se e concentrou-se por uns segundos. À sua frente surgiu, brotando do próprio ar, uns pães, água, frutas, carne cozida. Uma refeição que o sustentaria por um dia.

Depois de descansar sob uma árvore, olhava o céu imaginando o que seriam as nuvens. Um Mestre da Ordem dizia que era vapor gelado. Bom... ele não podia discutir com alguém de conhecimento tão grande.

Mestre da Ordem... como seria bom se tornar um Mestre! Mas era preciso viver no mundo por anos... e anos... para retornar e ser aceito pelos outros Mestres. Ele já viva no mundo por onze dias. Não significava nada, nem para ele mesmo.

Um grito baixo o alertou de seu quase sono. Uma criança, talvez? Olhando para os lados, percebeu um menino correndo com toda a força. Havia medo nos olhos do garoto, que se aproximava dele ou da árvore. Ele não sabia.

Uma sombra corria atrás do garoto. Um lobo? Um javali? Ali, em pleno dia? Não. Um cão.

Não havia tempo para pensar em magias. Pegou o cajado do chão e gritou em direção ao cão. Talvez espantaria o animal.

Não adiantou nada. O cão o atacou em direção às pernas. Ele se jogou no chão, para o lado esquerdo, tentando fugir. Batia com o cajado no cão marrom escuro. Dentes brancos que mordiam o cajado ferozmente.

O medo tomou conta de Alebrian. Começou a agir por instinto. Largou o cajado e deu um giro para o lado direito. Só pensava em chutar o bicho.

Ele só queria chutar o bicho, o tempo todo.

Não conseguiu perceber que seu pé direito estava molhado de sangue, que saía da barriga estourada do animal. Ele havia matado um cão. Apesar de tudo, era uma vida.

O menino o chamava com uma voz longe, apesar de estar ao seu lado. Ele percebeu que a voz ficava mais próxima... e voltou a si. Tudo estava vermelho à sua frente... até que voltou às cores normais da grama, do céu, da árvore.

O garoto carregava um pedaço de carne, enrolado num pano. Devia ser do cão, ou o cão queria a carne. Isso não tinha importância. O cão estava morto.

Ninguém o recriminaria. Um jovem de quatorze anos salvando a própria vida e a de um menino era totalmente correto. Moralmente correto. Ninguém podia dizer que ele errou. Nem mesmo o dono do animal. Ele não podia estar errado.

Pegou o cajado. Sentiu uma fraqueza nas pernas. A agitação diminuía, a força diminuía junto. Estava disposto a caminhar, mas era melhor descansar novamente. Longe dali.

Um Adepto da Ordem da Luz Interior não mata. Esse era um dos muitos mandamentos. Trezentos e doze mandamentos. Ele sabia quase todos. Ele sempre sabia.

Suas curas mágicas não adiantariam num corpo morto. Viu o menino, se estava machucado. Nada sério, só arranhões nos pés, por correr nas pedras. Mandou-o embora de volta para a fazenda de onde viera.

Alebrian preocupou-se durante a caminhada pela tarde. A culpa por sentir prazer em matar um cão. Isso era impossível. Ele não poderia sentir prazer. Devia ser prazer por salvar o menino, com certeza. Ele jamais poderia sentir prazer na dor, na morte.

Mas a visão do sangue era prazerosa. E isso atormentava seu espírito.

Sua jornada não começou quando saiu pelas portas de cedro da Ordem. Ela começou com o vermelho do sangue, e com o sabor doce que sentia em sua boca.